Jornalismo Open Source: alguns apontamentos

Conversei por e-mail com a Daiane Santos, estudante de jornalismo da Universidade Católica de Pelotas sobre o jornalismo open source. Ela questionou o conceito, a produção, credibilidade e a relação do jornalismo colaborativo com os mass media. Confira abaixo:

Por que a escolha do termo jornalismo Open Source para a definição deste modelo colaborativo?

A base filosófica do jornalismo colaborativo/open source é movimento do software livre iniciado em 1984, por Richard Stallman, como contraponto ao software proprietário, que “aprisionava” e “restringia a liberdade” dos usuários. A proposta do software livre era de abrir o código-fonte para a análise e modificação por parte de qualquer utilizador, aprimorando desta forma, a usabilidade do programa. Além dos aspectos tecnicistas, o movimento trouxe consigo a luta pela liberdade, compartilhamento de conteúdo e a colaboração como processo produtivo, em substituição ao individualismo.

O requisito essencial para liberdade do software é a disponibilização do código-fonte para o estudo, cópia, modificação e distribuição da “versão” atualizada, sem restrições, o que torna o upgrade um movimento constante nas comunidades de desenvolvedores do software livre.

No jornalismo, metaforicamente, disponibilizar o código-fonte significa conceder espaços para veiculação do conteúdo produzido pelo público, ampliar os mecanismos de colaboração entre jornais e leitores, seja na elaboração da pauta, na utilização de imagens produzida por cidadãos-repórteres na composição de matérias, bem como desenvolver uma estrutura de produção e divisão da receita gerada por produtos baseados em paradigmas colaborativos.

Como se dá a construção das matérias no jornalismo Open Source?

Existem alguns níveis de colaboração no jornalismo open source: parcial ou total. O beatblogging, por exemplo, é uma experiência onde o jornalista informa à determinada comunidade a pauta que irá desenvolver e solicita sugestões de fontes, enquadramentos e/ou críticas da pauta em curso. O Yoosk propõe uma rede de entrevistadores colaborativos. Os utilizadores do sistema elaboram questionamentos para figuras de relevância social ou política, a própria rede decide qual personagem deve ser entrevistado. A equipe de jornalistas do Yoosk se encarrega de entrar em contato com as personalidades públicas e realizar a entrevista, com base nas perguntas elaboradas pela rede cidadã, ou seja, nestes dois exemplos há possibilidade real de colaboração, mas ela é parcial, ou limitada a uma determinada etapa da construção das matérias.

Já no nível total, como no Brasil Wiki, Wiki News, Boca do Povo (para citar algumas experiências nem tão famosas) o cidadão-repórter tem a liberdade/acesso pleno ao “código-fonte”. Ele pensa a pauta, colhe os dados, embasa suas opiniões, escolhe suas fontes, escreve o conteúdo o conteúdo e sobe para a home da mídia colaborativa. Na maioria destas é necessário um cadastro para publicar os textos.

rede

Como é feito o controle da qualidade das informações e interações produzidas pelos leitores, neste modelo jornalístico?

Acho que você questionou sobre a credibilidade das notícias produzidas pelos cidadãos-repórteres. Penso que a legitimação ou credibilidade de uma matéria está relacionada ao campo social e aos seus atores. Historicamente, os jornalistas são os agentes formadores da esfera de visibilidade pública, cabe a eles, em nome do interesse público, selecionar os fatos de maior relevância e apresentá-los à sociedade. Estou a falar de poder, capital simbólico, status, coisa que o jornalismo open source ainda não possui, portanto as notícias divulgadas pelos cidadãos-repórteres ainda são questionáveis do ponto de vista da confiabilidade. A credibilidade de uma matéria depende mais de quem a escreve, do que a informação em si.

Os jornais colaborativos possuem uma equipe de jornalistas para apurar as informações produzidas pelos cidadãos-repórteres e legitimarem o que foi escrito, filmado, gravado. A existência de um mediador no processo produtivo revela-se como necessário visto que, por tratar-se de uma atividade informativa, a que se observar e respeitar os códigos de ética e/ou deontológicos, bem como os trâmites jurídicos, ainda não conhecido pelos colaboradores.

Independente do que se fale ou escreva no mainstream midiático, a priori, será interpretado como algo real, confiável e relevante. Não estou a discutir a qualidade dos produtos jornalísticos, mas uma informação publicada em um jornal é sinônimo de realidade. Se o Jornal Nacional der a chamada “Morre o rei Roberto Carlos” não há dúvida de que a informação será tomada como verdadeira. Agora, se eu publicar em meu blog “Exclusivo: morre o rei Roberto Carlos” será encarada como uma notícia a ser apurada. Certamente, o leitor irá acessar a Folha de São Paulo, o Estadão, Zero Hora e afins para comprovarem a veracidade do meu post.

Em sua opinião, qual a importância do jornalismo Open Source para a construção da Opinião Pública, na atualidade?

Não acredito em opinião pública, o que existe é uma dialética de opiniões publicadas em busca da hegemonia das suas teses (mas isso é assunto para outra entrevista). Atualmente, o jornalismo open source no Brasil tem uma participação inexpressiva na formação da esfera de visibilidade pública.

Não há como negar as potencialidades do jornalismo open source na formação da agenda pública, não por uma questão numérica e o velho papo de que os cidadãos-repórteres estão em lugares que não dá tempo do jornalista chegar, mas por uma questão de “afeto” com a notícia produzida. As pautas do mainstream midiático são objetivas demais e quase sempre desinteressadas no cotidiano das pessoas ou de forte apelo sensacionalista.

No jornalismo open source, sobretudo nas experiências hiper-locais/comunitárias percebe-se o acúmulo de poder simbólico na construção da agenda pública, seja através da exposição de temas específicos de uma comunidade ou na criação de vínculos afetivos de temas globais a uma determinada localidade/população.

É curioso observar as lacunas deixadas pelos mass media, no que tange a cobertura das cidades/bairros periféricos, bem como a não-identificação ou não-reconhecimento da população sobre temas locais pautados nos grandes veículos de comunicação.

Estabelecer o diálogo com uma comunidade é mais eficiente quando você está afeto ao cotidiano local. Para os produtores de conteúdo respirar o mesmo “ar” auxilia na produção de conteúdo, com uma linguagem próxima ao seu público, diferentemente do que ficar imaginando qual o perfil do meu leitor no outro pólo. Por falar em pólo, é impressionante como os leitores respondem a uma provocação pautada pelo jornal local e, o melhor, cria-se um elo entre público e mídia, essencial para a produção colaborativa.
Dê sua opinião sobre o impacto do jornalismo Open Source sobre o jornalismo convencional.

Antes de tudo, o jornalismo colaborativo não tem como objetivo aniquilar os mass media, mas sim, complementar e/ou remixar a agenda midiática. Acredito que o grande impacto diz respeito ao relacionamento dos jornalistas com os seus leitores, que não são meros leitores, mas interagentes (Primo, 2007).

O leitor não apenas está no controle e decide a forma que irá consumir as informações, como também anseia em participar da produção de conteúdo. A cultura do “faça você mesmo!”, potencializada pela internet e a liberação do pólo emissor coloca na berlinda o papel do jornalista como mediador/tradutor da sociedade e suas complexidades. A mediação jornalística, que se baseava em recortar fragmentos da “realidade” e apresentá-los aos receptores, em um sentido puramente conectivo (realidade – público), precisa evoluir para uma mediação dialógica, premissa essencial para o ciberjornalismo.

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Debates na Conferência de Comunicação Social da Bahia

Pela manhã foram divididos dois grupos (Políticas Públicas de Comunicação e Desenvolvimento Territorial e Educação e Novas TIC`s, no qual eu fiquei e o debate fora basicamente sobre inclusão sócio-digital, como se apropriar das novas tecnologias de comunicação e informação para gerar conhecimento e transformação social.

Fora realizadas duas palestras do Ismar Oliveira e Marcos Manhães acerca deste macro-tema e a síntese está abaixo:

Educomunicação e Políticas Públicas

Ismar de Oliveira focou sua palestra na educomunicação. Para ele, a comunicação é uma ferramenta estratégica para a educação e formação cidadã. Oliveria falou da importância da criação de ecossistemas comunicativos, que devem ser abertos, criativos e democráticos, destacou a importância da co-participação dos usuários na produção e divulgação de conteúdo.

“as novas tecnologias de informação e comunicação desempenham um papel fundamental na democratização da comunicação e para educação”, destacou.

Por fim, apresentou diversas experiências onde as comunidades se apropriaram das ferramentas de comunicação para o compartilhamento de conhecimento. Como a Fundação Casa Grande, onde existe a gestão democrática da comunicação.

Marcos Manhães

Modelos econômicos e mercadológicos vêm acompanhadas nos processos tecnológicos. Segundo Marcus Manhães, o consumo das Novas TIC`s são modulados/direcionados, mas podem ser apropriados de formas específicas para atender as necessidades de determinados grupos.

As Novas TIC`s potencializaram as redes de relacionamento, para além do muro do vizinho. Esta dinâmica social torna o mundo pequeno “small world”.
Para Manhães “a expressão tecnológica é a materialização cultural da subjetividade. O consumo e apropriação destas tecnologias são frutos de estruturas culturais”.

As experiências que envolvam tecnologia e educação precisam de “adaptadas” a cada realidade para que gere um sentimento de pertencimento e participação das comunidades.

Para as rádios comunitárias é a melhor alternativa é ocupar “espaços” na internet do que brigar pelas freqüências analógicas, que segundo ele já datam prazo de validade. Propôs ainda a criação de nuvens de acesso wi-fi aberto e gratuito, uma espécie infoesfera onde o compartilhamento de conteúdos sejam potencializados.

Sobre os palestrantes:

Ismar de Oliveira – Pós-Doutor em Ciência da Comunicação e Coordenador do Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo. É também responsável pelos projetos de lei em edu-comunicação na cidade de São Paulo e no estado do Mato Grosso.

Marcos Manhães
– pesquisador em telecomunicações e mestre em Educação pela Unicamp. É coordenador técnico do Laboratório de TV Digital na Diretoria de Inclusão e TV Digital na Fundação Centro de Pesquisa e Desenvolvimento – CPqD.

Dicas de livro

Achei interessante a sinopse do livro Indústria de Notícias: capitalismo e novas tecnologias no jornalismo contemporâneo, da Virginia Fonseca. Na obra é analisado o declínio da notícia de interesse público em favor de matérias de prestação de serviços e de entretenimento, que para “autora aprofunda o caráter de mercadoria das notícias e dos jornais e, conseqüentemente, reduz a função social da atividade jornalística”.

Já a relação entre gênero e comunicação é a temática explorada no livro Comunicação e gênero – A aventura da Pesquisa, da Ana Carolina Escosteguy (PUCRS). A obra está disponível para download gratuito.

A internet do leitor: o que deu certo?

Dia corrido, sem tempo para postar. Li e achei interessante o texto do ombudsman avaliando o “Minha notícia”. Há algumas pérolas e pontos a se pensar.

Existe também um artigo sobre a credibilidade no jornalismo colaborativo do Marcelo Cardoso.

Associated Press proíbe utilização de seus textos pela mídia colaborativa

Sob a acusação de violar o copyright, a Associated Press (AP) enviou carta à Drudge Retort exigindo a retirada das citações oriundas da AP.

A blogosfera, é claro, reagiu, acusando a Associated Press de impedir o direito da citação/apropriação de conteúdo e lançou uma campanha de boicote a AP. Além disso, críticas duras foram realizadas ao formulario de cotas pagas para reproduzir citações da Agência. Até Dan Gillmor escreveu sobre o assunto.

Em tempo de conteúdo colaborativo, web 2.0, inovações e ampliação do campo jornalístico é no mínimo estranho a postura da Agência de notícias mais influente do mundo e revela a difícil relação/entendimento do mainstream midiático com as mídias colaborativas.

Entretanto, recentemente, vimos bons exemplos de relação “harmonioso” entre mass media e colaborative media . O Publico.PT criou uma lista dos trackback feitos por blogs que comentaram as matérias do referido jornal e o La Vanguardia.es. deu início ao La voz de la blogosfera, que através do sistema Twingly, um motor de busca + ping conectará as reações dos blogueiros acerca do noticiário do La Vanguardia.es.

Defendi em outro post que tais iniciativas mostrarão a influência do jornal na promoção dos debates e o perfil dos usuários, além de um importante mecanismo para interatividade entre media e usuários, tornando as notícias mais dialógicas.

Download Day

Até o fim da elaboração deste post (9h45) 1.610.286 pessoas em todo mundo confirmaram sua participação no Download Day, evento promovido pela Mozilla Foundation, “proprietária” do FireFox. A idéia é entrar para Livro dos Recordes Guinness como o software mais baixado em 24 horas. No Brasil já somos 97.030 usuários cadastrados.

Simbolicamente, o Download Day potencializa a colaboração como processo produtivo, contrapondo o individualismo escroto do capitalismo, aqui representado pelo Internet Explorer. Por outro lado, destaca o “poder” da rede mundial de computadores, que numa espécie de boca-a-boca publiciza a ação, relativizando o formato clássico da publicidade, diria que nesse caso o êxito da campanha é até maior, pois atinge nichos de “consumidores” ao mesmo tempo que cria um “movimento” o que acaba por agendar o próprio mainstream midiático.

Aqui no Brasil, o download poderá ser realizado a partir das 14h

Roda Viva abre arquivo

Já está no “ar” o “Memória Roda Viva” projeto do Roda Viva, da TV Cultura que disponibilizará as entrevistas realizadas ao longo dos 21 anos do programa. Além das entrevistas em audiovisual, tiveram a árdua tarefa de transcrever o conteúdo.

Segundo a TV Cultura, até 2009 todas as entrevistas estejam online, totalizando mais de mil programas. Até lá, 205 entrevistas já podem ser visualizadas.