A Tarde: Gerente de Internet explica mudanças no jornal

O lançamento do novo site do A Tarde rendeu um bom debate neste blog e ramificou-se pelo twitter. O Fernando Severino, Gerente de Internet do Grupo A TARDE apareceu por aqui e comentou as mudanças no jornal. Aproveitei e conversei (por e-mail) com o Fernando Severino sobre alguns detalhes do projeto e as perspectivas de A Tarde. Acompanhe abaixo:

Por que o A Tarde resolveu mudar sua home?

Na verdade a mudança não foi só na home, foi no site inteiro. Pesquisamos constantemente as tendências mundiais em termos de jornalismo digital e acumulamos ao longo de um período uma série de features e inovações que vão surgindo, assim como monitoramos o comportamento do consumidor digital de informações e principalmente analisamos a evolução desse comportamento. Chega um momento em que olhamos para o site atual (o antigo) e percebemos que ele já não reflete de forma plena os anseios dos internautas, esse é o sinal para a mudança. Foi por esta razão que fizemos a mudança.

Quais os principais obstáculos enfrentados para o lançamento do novo site?

Chamaria mais de desafios do que obstáculos, porque desde o início toda a empresa sabia da importância dessa mudança, e deu todas as condições necessária para que fizéssemos um trabalho bem planejado e integrado. O principal desafio foi sem dúvida a adequação da estrutura de RH para cumprir com nova proposta editorial. Foi necessário contratar, treinar e deslocar profissionais, modificar o fluxo de trabalho, envolver e integrar os demais veículos, criar do zero uma equipe de produção audiovisual, reestruturar os fluxos de produção, redefinir os papéis dos editores, enfim foi uma grande mudança.

Quanto foi gasto no projeto e quais ações foram desenvolvidas para capacitar a redação? Houverão novas contratações? Qual o perfil dos profissionais que estão trabalhando no Atol (A Tarde On Line)?

O projeto inteiro custou cerca de R$50.000,00, entre desenvolvimento, layout e adequação tecnológica, tivemos ainda uma outra soma semelhante para a criação da WebTV, que tratamos internamente como um projeto a parte, porém integrado. Quanto as novas contratações, estamos numa fase de acompanhamento da transição, em breve saberemos se existe a necessidade de mais profissionais. Quanto ao perfil, estou entendendo que se refira aos jornalistas, o perfil destes profissionais deve ser altamente flexível e adaptável as novas propostas tecnológicas e editorias, ser multimídia e saber aproveitar ao máximo as funcionalidades da web 2.0 para produzir um material editorial mais rico, compatível com as possibilidades da web.

Áudios, vídeos, infografias, fotos, coberturas temáticas foram inseridas no site, mas de formas isoladas. A Tarde pensa em criar narrativas multimidiáticas, que englobe os diversos formatos na construção da notícia?

Claro, esta é a idéia da plataforma desenvolvida( CMS ). Como escrevi anteriormente, estamos num momento de transição. Já existem algumas iniciativas nesse sentido, e com tempo estaremos produzindo com mais riqueza. É importante reconhecer no entanto que a produção multimídia exige um esforço muito grande de produção e leva tempo, o que muitas vezes é incompatível com o tempo de resposta de um periódico, neles a notícia se desgasta muito rápido, não permitindo muitas vezes uma produção mais elaborada por comprometer o tempo da notícia. Este tipo de produção se torna mais viável para as revistas ou sites que exploram o “soft news”.

Algumas experiências colaborativas já foram desenvolvidas por A Tarde buscando aproximar/permitir que os usuários construam/colaborem na produção de conteúdo, mas sem muito êxito. Que estratégias serão adotadas para potencializar a colaboração dos leitores de A Tarde?

Não diria que tivemos pouco êxito. Costumo destacar que o nosso internauta ainda não é 2.0 e sim uma espécie de 1.5. Tivemos esta certeza quando fizemos o teste de usabilidade deste site com diversos grupos focais de perfis completamente diferentes. Nossa proposta inicial foi muito mais radical em termos de colaboração, só que percebemos que uma número muito pequeno de pessoas utilizavam os recurso, quiça sabiam o que eram ou para que serviam. Esta maturidade de navegação ainda não chegou ao Brasil, por mais que tenhamos grandes número de participação no Orkut, fica só nisso mesmo. Um universo muito pequeno de internautas utilizava para valer os conceitos de colaboração nos nossos testes, a grande maioria nos disse que esperava de um portal de notícias muitas chamadas na home para que elas podussem saber de forma absolutamente generalizada o que está acontecendo, adotando um fluxo de navegação do tipo home-notícia-home-notícia-home-tchau. Isso foi um verdadeiro banho de água fria na nossa equipe de desenvolvimento de produtos web, percebemos que estávamos fazendo um portal baseado nas nossas experiências de navegação na web e não estávamos considerando os “later adopters” que são a grande maioria da curva dos consumidores. Foi um grande aprendizado. Vamos, portanto, evoluir o portal na mesma velocidade dos nossos internautas, provocando sistemática e periodicamente a colaboração e analisando as respostas obtidas, para sabermos se podemos ou não avançar para a próxima fase.

Na Europa, alguns jornais criaram mecanismo de diálogo/monitoramento da blogosfera local. O Público (Portugal) criou uma lista dos trackback dos blogs que comentaram as notícias do jornal. O La Vanguardia criou um sistema parecido.  A Tarde irá desenvolver alguma relação com a blogosfera baiana/nacional?

Estamos engatinhando no conceito de blogs ainda, neste momento estamos apenas mapeando os blogs que nos interessam tematicamente para incluirmos no portal.

Por falar em blogs, eles parecem mais colunas, sem falar que todos os blogs do A Tarde possuem o mesmo layout, sem atualização, links para outros blogs (apenas dos jornais)…Haverão mudanças?

Logo, logo, é a pauta mais imediata. Tivemos que optar por lançar ou trabalhar mais. Preferimos adotar a estratégia Google de lançar e ir melhorando aos poucos.

Em relação aos microblogs, que é o grande boom, o A Tarde pensa em utilizar tais ferramentas na veiculação/produção de conteúdo?

Estamos atentos a isso. Já queríamos ter utilizado nas sabatinas com os candidatos a prefeito( que está sendo um grande sucesso, diga-se de passagem ) mas o regulamento não previa isso, então tivemos que postergar um pouco.

Quais as próximas inovações de A Tarde?

Lançaremos em breve a nova versão do classificados on line, que comercialmente é um projeto estratégico para a empresa, em paralelo estamos reformulando os canais de pós-graduação, cinema e turismo, além de algumas iniciativas sazonais com o canal Verão.

Anúncios

O que é o que A Tarde tem?

Tem me assustado o método que o A Tarde apresenta suas novas funcionalidades e produtos. A nova versão digital, prometida para o dia 5 de agosto e reprogramada para o dia 31 deste mês começa a aparecer em doses homeopáticas.

Primeiro fora o lançamento dos vídeos para o integrar o noticiário do jornal baiano. Em nota divulgada o veículo dizia “ampliar a oferta de conteúdo multimídia” com a simples disponibilização de vídeos em seu site. Estranho…

Agora foi a vez do A Tarde potencializar os seus blogs, a divulgação é claro. Teve até chamada na capa do impresso.  O conteúdo veiculado nestes blogs ainda está na fase transpositiva, a etapa primária do ciberjornalismo: as matérias publicadas no impresso vão para o site. Só falta falar que isso é cross-media. O pior é que anunciaram o “velho” como novo.

Estou a pensar…diante de anúncios de modernidade da imprensa baiana serão essas as “novidades” que o A Tarde irá implantar?

Site do A Tarde sairá ate o final de agosto

O novo site do A Tarde (conforme publiquei aqui) estava previsto para o dia 5 de agosto. Mas até agora nada. Ao que tudo indica o maior jornal do norte-nordeste terá sua nova versão lançada no dia 31 de agosto. Além da nova data, ouvi de uma editora do A Tarde que terá até produção em vídeo (já está em teste) e o site ficará bastante amplo, um portal ao pé da letra.

Agora resta saber se a redução enxuta (depois de uma tsunami de demissões) dará conta da alimentação diária do site e os conceitos sejam aplicados corretamente. Marquei a nova data no calendário.

Jornal A Tarde terá novo site

Li no site do Tasso Franco que o jornal A Tarde dará um upgrade em seu site (já era tempo). Convergência, interação, multimidialidade e colaboração são conceitos-chaves para mudança, visando adaptar-se à Web 2.0.

A nova versão entrará no “ar” dia cinco de agosto e custou R$ 300 mil. O A Tarde é líder no mercado baiano e um dos maiores do Norte-Nordeste. Atualmente, o grupo possui uma rádio FM, jornal impresso e site jornalístico.

Em tempo, o Correio da Bahia também anunciou mudanças

O Consumo da Informação e as Novas Tecnologias,

foi o tema do Seminário realizado pelo Centro de Excelência da Informação (CEI), do Grupo A TARDE em parceria com as Faculdades Jorge Amado (FJA). O Seminário contou com a presença dos professores Alex Primo (UFRGS), Antonio Cabral (FGV) e Marcos Palacios (Facom-UFBA).

arq-185.jpg

Da esquerda para direita, Primo, Cabral e Palacios

Dessa vez pude chegar mais cedo, ficar até o final e o melhor: conversar pessoalmente com os pensadores acima. E esse conversar foi interessante, considerando que o blog do GJOL e do Alex Primo são minhas leituras diárias, essenciais para a compreensão da cibercultura, jornalismo digital, blogs e afins.

Então, pude encontrá-los ali, bater um papo e tal. Esse encontro pode servir como metáfora para o que Alex Primo chama de “conversas fluidas” na blogosfera, que podem acontecer:

– intra-blog (comentários);

– inter-blog (link para outros blogs ou post como resposta/referência a uma publicação anterior);

– extra-blog (o exemplo citado)

A conversa teve um enfoque maior na palestra de Primo, intitulada “Blogs, redes sociais, memes, marketing viral e credibilidade”.

* Credibilidade dos blogs/blogosfera

Retomou a campanha kamikase do Estadão contra a blogosfera, pontuando o equívoco conceitual do jornal ao comparar macacos com blogueiros. A reação da blogosfera também foi evidenciada, bem como o seu resultado: um evento organizado pelo Estadão com a presença de blogueiros e pesquisadores para minimizar/esclarecer a campanha.

O que achei mais interessante dessa parte foi ao Primo dizer que precisamos abandonar o “óculos da modernidade” para analisar dinâmicas pós-modernas. E como isso se manifesta nos blogs?

*O que são blogs?

Aos “óculos da modernidade” blogs são:

– sistema facilitado de publicação;

– diário íntimo;

– jornalismo.

A proposta dele é que existem três sentidos para os blogs:

1- Blog como programa – WordPress, LiveJournal, Blogspot..

2- Blog como espaço – Achei o seu blog no google. Publiquei no meu blog.

3- Blog como texto – esse post, por exemplo.

Esses sentidos não são estanques. O blog enquanto programa não tem apenas a finalidade de publicar texto, pode ser usado para ganhar $$$, para as empresas manterem o diálogo com seus clientes. O blog como espaço potencializa as relações sociais e as conversações que acontecem:

– conversa com os outros e com o self;

– você escreve enquanto pensa (acho que falarei das memes e marketing viral a seguir)

Primo falou de algumas memes e alguns casos de marketing viral. Porém, problematizou essas práticas/dinâmicas.

“a comunicação humana não tem características apenas de transmitir informação, o sujeito adapta, acrescenta, reconfigura e passa para frente um novo produto/fala”, disse Alex Primo em sua crítica de que a transmissão viral é um processo aditivo.

<<Você precisará ler esse post aqui para entender>>

Antonio Cabral (especialista em direito autoral)

Fora uma apresentação recheada de dados e reflexões. Não teve um foco específico, como ele mesmo disse a sua palestra seria “ampla sem focar em determinado aspecto”, portanto compartilho alguns deles:

– a indústria cultural não adaptou-se as necessidades dos usuários, principalmente no que tange o acesso ao conhecimento (potencializado pela internet) que a indústria continua na tentativa de restringir o acesso livre ou sob outra lógica de consumo à música, livro, vídeos….quando não, pune os “infratores” das leis obsoletas.

– Cabral sustentou que a sociedade não enxerga como um “crime” fazer um download na internet de uma música ou do filme Tropa de Elite.

– Apresentou alguns dados interessantes como:

> 85% dos fonogramas pertencem à Sony/BMG

> Ivete Sangalo ganha apenas 8% do valor da venda dos seus cd’s/dvd’s, isso porque é uma artista de “peso”. Em contraponto a esse modelo de negócio, Cabral destacou o tecnobrega do Pará (Calypso), onde os próprios artistas produzem o seu material e entrega ao mercado informal “camelô”, que funcionam como divulgadores do trabalho (já economizam o jabá nas rádios) para que eles (os artistas) possam ganhar dinheiro com show.

arq-181.jpg

E haja papel e caneta para anotar os dados

> 150 milhões de obras já foram registradas com o Creative Commons. Uma boa alternativa jurídica, segundo ele para facilitar o acesso ao conhecimento.

> No Rio de Janeiro, 97% das salas de exibição de filmes pertencem a “rolyudi”.

> O direito controla a realidade, porém esse controle é materializado nas leis. O problema é que para elaborar uma lei é preciso

1. De um fato;

2. O valor (positivo ou negativo) que a sociedade irá atribuir a esse fato;

3. Cria-se uma norma.

Logo, o Direito estará sempre atrasado no que tange as necessidades sociais.

> Na Alemanha, após 2 anos sem a edição de um livro, ele pode ser copiado integralmente.

> O marco regulatório da tevê digital subtraiu as potencialidades da interação. O DRM, por exemplo impedirá que o usuário faça cópias da programação (você poderá gravar no aparelho, mas não poderá transpor para outro suporte, como gravar em um DVD). Para Cabral é um retrocesso, além disso os empresários da comunicação, com ajuda do Ministro das Comunicações, Hélio Costa, conseguiram aumentar o tamanho da”banda” o que resultará em menos novos canais.

Marcos Palacios

Respondeu ao questionamento: o que está acontecendo com o jornalismo diante das novas tecnologias? Ou qual é o lugar dos jornalistas?

Palacios explicou que a liberação do pólo emissor gerou uma plurivocalidade, que pode ser conceituada como “efeito conversacional”. Os limites entre ser emissor e receptor é bastante frágil, agora o sujeito pode ser emissor e receptor simultaneamente.

A esfera pública é ampliada, uma vez que surgem novas vozes e nos espaços para o debate. Palacios acredita que este fenômeno cria novas oportunidades para o jornalista se “encaixar” no mercado.

O desafio para os profissionais de comunicação seria o de:

“selecionar e organizar as informações no que tange a sua hierarquia e o contexto”

Palacios argumenta que existe um excesso de informação e que o jornalista, devido a sua formação e o seu papel histórico precisa repensar os seus habitus e práticas. Não haverá futuro para profissional que entenda e goste de apenas um suporte (impresso, rádio, tevê). É preciso ser jornalista e produzir conteúdo para diversas mídias, simultaneamente.

“o jornalista é um agente social e cria uma forma específica de informação organizada e portanto, uma forma de conhecimento”.

Ironizando os publicitários, administradores, gestores que criam as fórmulas dos 4 elementos para explicar determinado aspecto, Palacios propõe que o jornalismo precisa ser calcado nos 4Cs:

1. Convergência

– reorganização do modelo de negócio;

– reorganização da rotina de trabalho;

– redefinição das competências profissionais

– diluição das fronteiras profissionais.

2. Contexto

– elaborar produtos específicos para determinada mídia e público.

– além de claro, contextualizar o fato…

3. Comunidade

– evoluir de uma comunidade de leitores (passivos) para uma comunidade de co-autores/ comunidade conversacional.

4. Co-envolvimento

– como exemplo o beatblogging.org que discute a pauta com a comunidade seja por proximidade geográfica/conhecimento que pode sugerir ângulos, fontes, desdobramentos sobre a pauta proposta.