O Antônio que eu conheci

….e não é perigoso lutar pelo meio ambiente?

– Rapaz, qualquer luta contra os poderosos envolve riscos…

 

Será que há quatro anos atrás o criador e coordenador do Grupo Ecológico Nativos de Itapuã, Antônio Conceição Reis, 44, já premeditava o que iria acontecer na manhã de ontem?

Não lembro qual a disciplina da faculdade se destinava aquela atividade, apenas fomos à Lagoa do Abaeté realizar um trabalho acadêmico. O foco do trabalho eram as Lavadeiras do Abaeté e seus aspectos folclóricos, mas não fora encontrada nem lavadeiras, imagine a tradição, as histórias e a cultura que procurávamos.

Diante daquele paraíso natural, lagoas, dunas, mangue e lembranças de outrora (quem nunca desceu embolando naquelas dunas, alvas como as roupas das propagandas de sabão em pó, e caia na lagoa?) avistamos um stand, ou melhor, uma barraca, semelhante aquelas que vendem cachorro-quente no carnaval. Uma lona verde, algumas camisas expostas e o “Meninos do Abaeté” escrito na barraca. Não lembro de nenhum slogan. Era a única coisa, além da água e areia, existentes naquela tarde. Aproximamos-nos, explicamos o motivo de estarmos ali e, como “bons jornalistas”, que naquela época pretendíamos ser, iniciamos uma batalha de perguntas.

– Nome?

– Antônio Conceição Reis, mas sou conhecido como Antônio Conceição.

– O que faz da vida?

– Nós temos o projeto “Nativos de Itapuã”, do qual sou coordenador e criador, que trabalha com a consciência ambiental e preservação das lagoas do Abaeté. Lutamos para manter limpa as águas, evitar os assoreamento e conscientizar a população de como cuidar da natureza…e por aí desenrolou-se a conversa…

Antônio Conceição demonstrava grande conhecimento do que falava, e convencia. Em poucos minutos já era um defensor daquele parque. Há 18 anos estava naquela luta, mobilizando a comunidade, elaborando projetos para debater com os poder públicos, em uma palavra: um verdadeiro líder. Vestia a camisa do grupo (só lembro que era verde), sandálias, bermuda, tinha uma fita do Senhor do Bonfim no braço esquerdo. A pele, queimada pelo sol, tornara-a mais escura. A fala era pausada, os argumentos bem definidos e boa memória. Contou-nos sobre a Lagoa, o que precisava ser feito e, é claro, queixou-se do prefeito, dos vereadores, do governador: todos eles não estavam em aí para nada – repetia.

Mas Antônio continuaria ali.

Ah! Lembro agora que ele se queixou de novos empreendimentos de redes hoteleiras. Iriam destruir o ecossistema local, certamente foi o que fundamentou sua preocupação. Já vasculhei cada milímetro do quarto atrás da fita da nossa entrevista… Nada!

Ainda vi Antônio algumas vezes depois do primeiro encontro. Certa vez perguntei como andavam as coisas. Nada havia mudado. Mas fiquei feliz em ver que ele continuava ali, lutando, buscando preservar a maior riqueza (tão desprezada) pela sociedade. Os garotos que integravam a ONG recebiam treinamento para guiar os turistas pelo Parque do Abaeté. Uma alternativa para o mundo do crime, Antônio disse também.

O tempo passou…

Há muito não vou ao Abaeté. A criminalidade tomou conta do local, muita droga, muita briga. Evito. Só não pude evitar ouvir a matéria sobre a possível morte, morte nada, a-s-s-a-s-s-i-n-a-t-o de Antônio, a polícia ainda não comprovou se o cadáver é de fato o ambientalista. Na chamada do telejornal dizia que era um ambientalista de Itapuã.

Pensei em Antônio. Também é o único que conheço em Itapuã.

Mando (literalmente) meu irmão e minha filha CALAREM a boca.

Lá vem a matéria. Mostra a Lagoa, de repente surge à imagem de Antônio.

– Vixe… é ele mesmo.

A jornalista conta como aconteceu:

Deixou a filha na escola, voltava para casa, homens encapuzados desceram do carro atirando, quatro tiros na cabeça de acordo com a reportagem. Como um boi abatido carregaram-no; o corpo foi jogado no carro (a polícia já descobriu que é roubado), tocaram fogo no carro e no corpo (será dele mesmo? Cadê as provas?) Acharam o carro e o corpo, ironicamente numa reserva ambiental no distrito de Vilas de Abrantes (Camaçari-Bahia). Desconfiam que é ele. Imagens da família no IML (Instituto Médico Legal). Nem diante de uma tragédia abandonam o LEAD jornalístico…

Será que ninguém enxerga o que representa o fato? Será apenas mais um dado na estatística sobre violência urbana?

 Os peritos buscam um meio de identificar o corpo. Não bastaram os tiros? Meteram fogo no ambientalista. Não resta dúvida: foi vingança. Mas de quem? Por que? Quem eram os mandantes? A reportagem questiona, eu questiono. Todo mundo questiona?

Suspeitam da polícia, que invadiu sua casa, pequena, sem reboco, sem pintura recentemente. Antônio prestou queixa. A sua esposa se queixou. Premonição? Medo?

Sabe-se lá…Antônio ouviu a esposa, deixou a filha na escola, tinha audiência marcada na Corregedoria: iria tirar a queixa, depois da queixa da sua companheira.

Pelo horário, iria se arrumar, se dirigir à Corregedoria, mas a morte, fantasiada de vingança, se antecipou. Ou anteciparam?

Apontam as brigas com os comerciantes locais, depois que impediu que o carnaval fosse realizado na área ambiental, como uma resposta ao prejuízo causado.

Inúmerossssssssssssssssssssssss são os inimigossssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss, ameaças idem, bilhetes, piadinhas, fuxico. Certa vez tentaram incendiar seu stand lá da Lagoa.

Ninguém sabe! Como é que ninguém sabe??????????????????????????????????????

A matéria jornalística bradava:

– Um dos ambientalistas mais famosos de Salvador!!!!!!

Era conhecido na comunidade, fazia parte do cenário da Lagoa do Abaeté. Alguém viu, sim alguém viu. Depois que mataram o cabra, “a polícia” orientou os vizinhos a lavarem a calçada onde Antônio….nesse momento não é somente Antônio Conceição Reis, 44, Grupo Ecológico Nativos de Itapuã, porra!!! É símbolo de uma luta, de um sonho!!! Lavar a calçada para limpar as provas? Limpar a história de Antônio?

 imagem.jpg

A água pode ter limpado a marca do crime, a calçada perdeu a tonalidade vermelho-sangue, voltou a cor que era antes…mas só a cor, só a cor da calçada, palco para a tragédia humana, mas, certamente, quando forem falar da Lagoa, irão falar dele, assim como Dorival Caymmi, mas não haverá poesia, nem doçura, alegria e demais adjetivos melosos.

Só a certeza de que “qualquer luta contra os poderosos envolve riscos”.

 

 

 

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Uma resposta para “O Antônio que eu conheci

  1. UM CRIME PERFEITO O DO AMBIENTALISTA ANTONIO CONCEIÇÃO E QUASE O DA AMBIENTALISTA TELMA LOBÃO

    Meados de 2006 foi requisitado a Policia Militar, Comando Geral – Coronel Santana apoio para produzir o filme “Liberdade para Quem”, 4º lugar no Festival de Bonito, nível nacional, sobre o trabalho da ambientalista Telma Lobão. A viatura foi dada com protestos, pois Coronel Santana sempre cedia apoio criando dificuldade.
    Dia seguinte a ambientalista solicitou uma viatura cedo pois iria para uma área de mata deserta fazer monitoramento de ninhos e a PM lhe cedeu apoio da viatura com 2 policiais. No caminho desta área a viatura parou depois que avistou um chevete vermelho e dele desceu correndo um policial FARDADO de vulgo “Bronca” conhecido como o “matador oficial da Policia Militar” (“quando quer matar alguém a PM o requisita”, é o que povo afirma na região, sendo que o mesmo é responsável por vários assassinatos, sendo o ultimo na Escola de Agronomia, e jamais perdendo a farda).
    O referido “Bronca” entrou na viatura, sentou junto da ambientalista e apontou para ela um revolver calibre 38, preto, velho, sacudia a arma o tempo todo afirmando que “lá embaixo existe uns caras que estão fingindo que estão armando passarinho mas querem é te matar, alguém me denunciou”! A ambientalista perguntou como alguém falou a ele se ele vinha do lado oposto, e ele não respondeu, fez várias perguntas e ninguém respondia, como se fosse um pacto, e o “Bronca” continuou apontando e sacudindo a arma. Antes de chegar na área a viatura teria que passar na frente de um Pesque Pague, que tinha casas próximas e a ambientalista se preparou para pular, já que a estrada não permitia que a viatura andasse rápido, então desceu correndo e entrou no Pesque Pague, ligou para o 190 sendo atendida pelo sargento do dia que afirmou desconhecer o que o referido policial fazia na viatura, PRINCIPALMENTE FARDADO JÁ QUE ELE NÃO ESTAVA DE SERVIÇO NAQUELE DIA, mandando em seguida recolher a viatura. Apesar de denunciado a Santana e ao comando local o fato nunca foi apurado. Nem podia, não é?

    CONCLUSÃO DE POLICIAIS FEDERAIS AMIGOS NOSSO:
    Oficialmente na viatura que foi cedida para acompanhar a ambientalista só havia 2 policiais militares, com suas respectivas armas. O policial “Bronca” não estava de serviço naquele dia, os registros da Policia Militar provavam isso. Portanto após o assassinato da ambientalista os dois policiais não poderia ser acusados pois os tiros não saíram de seus revólveres e mesmo alguém afirmando que viu o policial “Bronca” fardado dentro da viatura passaria por mentiroso, pois a PM provaria o contrário.

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