Comentários sobre o Boca do Povo

Passei três dias observando e bulindo no Boca do Povo, site jornalístico baseado no open source na produção de notícias. No primeiro contato me assustei com o copyright e o LEAD adotado pelo editorial do veículo para “facilitar” a colaboração do leitor. Se é colaborativo, por que o Boca do Povo “ganha” o direito do autor podendo até comercializar o conteúdo (sem dividi-lo com o colaborador)?

Aproveitando alguns ensinamentos do professor Giovandro Ferreira durante a disciplina “Análise do discurso jornalístico” lá na pós-graduação, se partirmos para analisar o Boca do Povo baseado no contrato de leitura, contrato estabelecido pelos media com os seus leitores, que orienta tanto a semiótica da produção jornalística como o consumo, veremos que o usuário imaginado/criado pelo Boca do Povo é um verdadeiro imbecil e não sabe escrever uma simples nota sobre a chuva que caiu em Salvador ontem, por exemplo.

Digo isso devido à adoção do LEAD (opcional) para construção da notícia. Sinceramente não me convence a justificativa do Boca do Povo que sinaliza:

Lead como uma ferramenta de apoio, e a criação de um sistema que permite a composição do texto através dele, foi tomada pela equipe do Bocadopovo.com.br, após a realização de um estudo, no qual observou-se que os primeiros veículos no mundo, que já fazem uso desta nova modalidade, o Jornalismo Cidadão, terem tido dificuldade de participação popular por causa da insegurança do internauta na hora de escrever sua notícia.

Ora, estamos a discutir o ciberjornalismo, novos práticas de “fazer” e “pensar” o jornalismo e resgatam o velho LEAD? Não deveria as experiências colaborativas pautarem também esses debates com seus leitores? Não estou aqui a cobrar dos cidadãos-repórteres textos multimídia-hipermidiaticos e afins, mas a relação de uma mídia com seu público, ainda mais quando este é colaborador, deve ter como filosofia tais requisitos.

Como todos sabem, nos modelos de narrativas digitais explorar os elementos característicos da web, como a memória, a instantaneidade, interatividade, personalização, hipertextualidade e a multimidialidade é o básico. Ainda sobre o LEAD, o professor João Canavilhas argumenta que “usar a técnica da pirâmide invertida na web é cercear o webjornalismo de uma das suas potencialidades mais interessantes: a adopção de uma arquitectura noticiosa aberta e de livre navegação”

Ter o LEAD como parâmetro/modelo de produção de conteúdo não é castrar a criatividade dos colaboradores? O Overmundo, por exemplo, é repleto de criatividade e “inovações” imagéticas-discursivas. Se os jornalistas sofrem por causa do LEAD, imagine a geração WWW acostumada com games interativos, hipertexto, personalização e tal.

A estrutura ideal para a “apresentação” das notícias na web é a estrutura arbórea, pois permite ao leitor uma maior navegabilidade dentro de determinada matéria. Penso que todo editorial de um jornal colaborativo deveria ter tal estrutura como perspectiva. Quem tem o conhecimento técnico e noções de hipermídia somos nós, os jornalistas. Editar o conteúdo produzido pelo público traz também essa nova forma de apresentar a notícia, de pensar seu consumo pela audiência.

Penso que as editoras precisam rever urgentemente o conceito da “objetividade” que estrutura a experiência colaborativa. A objetividade nada mais é do que um dispositivo utilizado pelos jornalistas para persuadir o leitor acerca da sua informação, uma vez que se promete ao espectador a verdade (somente a verdade) limpa e crua, sem paixões ou ideologia.  Tal concepção é responsável pela cobertura “desinteressada” midiática que resulta na paralisia crítica da sociedade que não sente-se pertencente aos problemas veiculados pelos mass media.

Como algumas experiências colaborativas-hiperlocais têm mostrado, a aproximação com o público e o debate de temas que seja de interesse de determinada comunidade norteia a produção diária. A notícia não tem como finalidade “atender” o campo econômico (seduzindo o leitor para a comprar do jornal e depois vendê-lo como consumidor a publicidade), mas um aspecto sócio-cultural, talvez até retorne ao princípio da imprensa burguesa: a notícia como o ponta pé inicial para o debate público sobre temas públicos, concepção que utopicamente sobrevive até o momento nas redações “de papel” ou “virtuais”.

Mas, são apenas os três primeiros dias…a observar… Em tempo, a Ana Brambilla também comentou sobre o Lead no Boca do Povo

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Jornalismo colaborativo na Bahia

Entrou no “ar” hoje o Boca do Povo, baseado no jornalismo open source, que permite a colaboração dos usuários na construção de notícias. A experiência é inovadora na Bahia, estado que registra os piores indícies de acesso à internet.

De qualquer forma, é louvável a iniciativa das jornalistas Ana Maria Negreiros e Sandra Miranda, que desenvolve o mesmo projeto em Tocantins.  Lá, o Boca do Povo já conta com mais de 600 colaboradores cadastrados, que enviam notícias diariamente e tem cerca de 90 mil acessos por mês. 

Dei uma olhada rápida no projeto e me assustei com o copyright e a utilização do (velho) LEAD para a construção da notícia. Mas, isso é assunto para amanhã. Segundo as idealizadoras:

A idéia de utilizar a técnica do Lead como uma ferramenta de apoio, e a criação de um sistema que permite a composição do texto através dele, foi tomada pela equipe do Bocadopovo.com.br, após a realização de um estudo, no qual observou-se que os primeiros veículos no mundo, que já fazem uso desta nova modalidade, o Jornalismo Cidadão, terem tido dificuldade de participação popular por causa da insegurança do internauta na hora de escrever sua notícia.

Dúvidas, muitas dúvidas sobre esta consideração/filosofia.