Conheça Catarse, a primeira plataforma brasileira de crowdfunding

Daniel Weinmann, Luis Otávio Ribeiro e Diego Reeberg, o trio é responsável pela primeira plataforma brasileira de crowdfunding, Catarse. O projeto deve entrar no “ar” ainda na primeira quinzena de janeiro com a ideia de utilizar a internet (plataforma) e cooperação para viabilizar projetos culturais de pessoas e organizações. Mais detalhes sobre o Catarse no video abaixo. Sugiro primeiro ler a entrevista que fiz com os idealizadores do projeto e depois asssistir o video.

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Confira a entrevista

Vi o vídeo de apresentação do Catarse e acompanho o blog (crowdfundingbr). A primeira pergunta é inevitável: como surgiu a ideia do projeto?

Daniel – Esta pergunta tem duas respostas, pois começamos em separado: eu de um lado, Diego e Luis de outro. Vou contar a minha parte e a parte de depois que nos juntamos. Aí os dois complementam com a parte deles anterior à nossa sociedade.

Há mais de 10 anos trabalho profissionalmente com projetos artísticos (principalmente música e dança), em paralelo com a vida de empreendedor em software. Porém em 2008 resolvi parar com qualquer iniciativa “profissional” (no sentido de ser financeiramente sustentável) em arte até que soubesse o que fazer para parar de dar murro em ponta de faca quando o assunto era dinheiro. Me recolhi aos estudos.

Mas no primeiro semestre de 2010 começaram a pipocar idéias de projetos envolvendo tango, e isso me fez voltar a pensar em maneiras de fazer as coisas acontecerem. Em todos os casos, acabava chegando em modelos onde queria coletar o dinheiro antes de botar a idéia em prática, para evitar que a coisa morresse lentamente, como em diversos projetos anteriores que realizei. Era melhor morrer antes de nascer do que definhar aos poucos, colocando um monte de energia fora.

Aí uma noite levantei da cama de soco quando cheguei ao conceito de “mecenato virtual” enquanto tentava dormir. Fui pro Google, pesquisei todos os termos que me vieram à mente, e não encontrei nada parecido. Escrevi a idéia de todo um site para fazer isto, e deixei a idéia amadurecer. Uns meses depois, em julho, nesta palestra do Seth Godin, ouvi ele falar do Kickstarter. Dei pause e fui pesquisar.

Descobri que já tinham feito o meu site, só que melhorado 🙂 eu não tinha pensado no sistema de recompensas, e a parte do “ou tudo ou nada” ainda era confusa no meu rascunho. Descobri que o “mecenato virtual” se chamava crowdfunding, fui atrás de tudo que pude encontrar, e descobri que não existia nenhuma iniciativa assim no Brasil. Um dos poucos textos nacionais sobre o assunto eram do Rafa Zatti, da labelDesafios.

A partir daí não conseguia parar de pensar em fazer o “Kickstarter brasileiro”. Mas, com o Mailee.me bombando e o dia-a-dia da Softa, tudo que consegui fazer ao longo de alguns meses foram alguns testes de conceito. Aí um dia conheci o Rafa Zatti no Startup Meetup Porto Alegre. Conversamos muito sobre iniciativas #crowd e quando falei que tava fazendo um Kickstarter brasileiro ele me disse que conhecia outras pessoas que tavam fazendo a mesma coisa em São Paulo.

Assim eu conheci o Diego Reeberg e o Luis Otávio Ribeiro, que vieram a ser sócios da Softa no Catarse. O Diego e eu conversamos por Skype um dia e já nos demos muito bem. Aí, no fim de outubro, quando fui para a RubyConf 2010, nos conhecemos e vimos que tínhamos afinidades e planos tão próximos que seria besta não nos juntarmos.

Deste encontro surgiu o Catarse e o CrowdfundingBR. Ainda na RubyConf falamos em fazer um projeto open source, pra estimular a difusão do modelo além do nosso produto, e de criar um blog/grupo sobre crowdfunding. Tudo colaborativo desde o início, pois é disto que se trata o crowdfunding.

Depois disso, no dia 6 de novembro criamos o blog, já anunciando nossos planos de lançar até o fim de 2010 e de transformar o projeto em open source. E depois disso foi uma questão de dormir muito pouco e transformar essa paixão em trabalho pra coisa realmente sair até o fim de 2010/início de 2011.

Luis – Ao contrário do Daniel que já tinha uma ligação com a arte e pensou no “mecenato virtual” antes de conhecer o Kickstarter, nós, primeiro, conhecemos o Kickstarter, e a partir disso fomos nos apaixonando pelo conceito e pensando em desenvolver uma plataforma semelhante no Brasil. Desde lá não paramos nunca de estudar crowdfunding e acompanhar e estudar as plataformas de crowdfunding já existentes e os novos sites que não param de surgir. Além disso, passamos a devorar livros, artigos e qualquer contéudo sobre crowdfunding, em especial, para projetos criativos.

Chegamos a contratar uma empresa de desenvolvimento, mas não deu nada certo, optamos por pagar muito barato e tinhámos pouco contato com eles. No final, um elefante branco! Nada semelhantes com as características de usabilidade e design dos sites de crowdfunding atuais. Não aproveitamos nada do nosso antigo site.

Depois disso, acho que o Daniel já falou. Foi quando ele e o Diego se encontraram e começamos a pensar em uma parceria. Depois disso, surgiram o CrowdfundingBR e o Catarse…

Diego – Vale acrescentar que eu e o Luís tínhamos outros três sócios quando iniciamos nossa trajetória pelo crowdfunding, mas depois ficamos só nós dois. Diria que a paixão pelo crowdfunding foi o grande ponto pra gente ter continuado na empreitada mesmo assim e, com isso, ter conhecido o Daniel.

Quando o Catarse entra no “ar” e como será a moderação dos projetos? Terá uma equipe ou a própria comunidade irá filtrar o que deve ou não ir (ou permanecer) no site?

Daniel – O Catarse vai pro ar antes da Campus Party. Ou seja: na primeira quinzena de janeiro. Estamos só finalizando os primeiros projetos que vão pro site e assim que tiverem prontos vamos botar o site no ar.

Sobre a moderação: nós iremos selecionar os projetos que entram para o site. Qualquer um pode enviar um projeto, mas nós faremos um filtro antes ir para o site. Vamos deixar o papel da comunidade para decidir que projetos devem ou não receber financiamento. Acreditamos que ter este processo de curadoria seja a melhor maneira de garantir a qualidade dos projetos, além de nos posicionarmos em relação a que projetos nós incentivamos. É como uma galeria de arte: o que está lá reflete o gosto do curador e o que ele quer fomentar.

Luis – Outro ponto importante aqui é que o processo de curadoria irá ajudar a reduzir a possibilidade de pessoas mal-intencionadas colocarem um projeto no site, arrecadarem o dinheiro e “sumirem”, sem cumprir com as recompensas prometidas e com o realização do projeto em si.

Diego – A curadoria também priorizará, pelo menos inicialmente, projetos um pouco mais consolidados do que somente ideias. A gente acha que projetos mais bem formatados darão uma segurança maior aos usuários que querem apoiá-los. Um bom motivo pra isso é porque, com o projeto mais bem formatado, fica mais fácil de enxergar a sua real capacidade de execução. Lógico, se a gente considerar alguma ideia sensacional e entender que o dono dela tem uma alta capacidade para realizá-la, é bem provável que ela vá para o site.

O financiamento de obras artísticas e/ou projetos é antigo. De alguma forma a Internet e o mercado de nicho potencializaram o crowdfunding?

Daniel – Creio que sem internet não há crowdfunding. Sem a internet ou outro meio de comunicação de massa “ponto a ponto”, seguiríamos falando em mecenas, patrocinadores, etc, como uma minoria. E o crowdfunding certamente também é fruto dos mercados de nicho. Mas, mais que tudo, acho que o crowdfunding estimula a diversificação ainda maior dos nichos, além da sustentabilidade de nichos muito pequenos.

Luis – Acho que o crowdfunding também não seria possível sem o crescimento das mídias sociais, hoje é muito mais fácil divulgar uma causa e mobilizar sua rede para agir. Web 2.0 e suas características de interatividade, colaboração e participação formam a base necessária para ser possível o crowdfunding.

Diego – Mesmo que a internet e as mídias sociais possibilitaram o crowdfunding, é importante lembrar que isso não basta para ter uma campanha bem sucedida. O dono do projeto tem que ter um relacionamento constante – e transparente – com sua comunidade para ter sucesso. Explicando com outras palavras, a internet é uma ferramenta importantíssima que será utilizada no processo, mas o esforço das pessoas envolvidas nele é o que há de mais fundamental.
O crowdfunding é uma versão pós-moderna do mecenato? O financiamento colaborativo pode ser classificado também como uma experiência de consumo?

Daniel – Sim, e sim como contei na história acima, antes de conhecer o crowdfunding, cheguei ao conceito de “mecenato virtual”. Trabalhei bastante tempo com um mecenas financiando um projeto meu, e este foi o projeto mais bem sucedido que tive. Porém quando é uma pessoa só (ou poucas), se desenvolve uma relação de poder pouco democrática, mesmo quando ambos os lados são muito abertos. Neste caso, o crowdfunding é uma versão melhorada do mecenato tradicional.

Sobre a experiência de consumo, basta ver os exemplos do Tik-tok e Luna-tok e do GLIF para comprovar esta hipótese. Este post do Diego Reeberg fala exatamente disto e é uma boa leitura para quem quer entender um pouco mais sobre esta transformação de mecenato para uma experiência de consumo.

Diego – Além disso, há um sentimento, para os apoiadores, ligado ao fato de que aquele projeto só foi possível por causa da sua participação, ou seja, ele compreende a sua importância para o projeto ter se tornado realidade. Isso não se resume apenas ao incentivo financeiro, mas muitas vezes por ter ajudado na campanha ao espalhar sobre aquele projeto nas suas redes sociais. Acho isso um aspecto da experiência de consumo que torna o crowdfunding notável.
Existem dados da quantia gerada por projetos baseados no crowdfunding?

Luis – O que temos de dados são os números que de vez em quando as 2 maiores plataformas de crowdfunding divulgam. Por exemplo: Atualmente, o Kickstarter já financiou mais de 3000 projetos ( atingiram o objetivo de arrecadação), arrecadando mais de 20 milhões de dólares e eles possuem um taxa de sucesso nos projetos de aproximadamente 47%.

O IndieGoGo, que aceita projetos do mundo todo ( 135 países), não divulgou números de arrecadação ( fala-se em milhões), mais possuem quase 15 mil projetos que tentaram financiamento, mas isso não significa que todos tenham completado o objetivo, já que nesse site você não precisa atingir o objetivo para receber o dinheiro. A taxa de sucesso do IndieGoGo (projetos que arrecadam pelo menos o seu objetivo – Obs do Diego)é de 10%. Lembrando que esse último não faz o processo de curadoria que falamos, já o Kickstarter faz.

Existem outras plataformas ao redor do mundo e ainda projetos individuais. Por isso é difícil juntar todos os dados e definir quanto que a “indústria” ( se é que podemos chamar assim) já gerou em arrecadações. Os projetos colaborativos, em si, já trazem muita desconfiança do público externo, creio que, quando a experiência envolve dinheiro o receio seja ainda maior. Penso que em iniciativas de crowfunding os colaboradores tenham um relacionamento mais forte com o idealizador do projeto, ou este precisa “vender” a sua ideia para um público mais específico. Esse é o caminho?

Daniel – Com certeza, o caminho é o do desenvolvimento de uma relação de confiança. Mesmo no caso em que o criador não conhece pessoalmente as pessoas que apóiam os projetos, o quanto ele está doando (e já doou) para uma comunidade com sua criação conta mais do que qualquer recompensa.

Quanto à questão da desconfiança, eu tenho certeza que ela vai ser grande, principalmente no início. Mas o que podemos fazer para desenvolver a nossa relação de confiança é selecionar projetos onde uma comunidade já tem confiança no artista/criador, e valorizar aquelas pessoas que não desconfiam. Desta maneira, a confiança vai crescendo de maneira orgânica, até chegar o dia em que isto não é mais um problema.

Diego – É bem interessante ver – baseado no que acontece nas plataformas de crowdfunding fora do Brasil – que os incentivos vindos de gente que não conhece o dono do projeto ocorrerão, majoritariamente, depois de ele já ter um apoio financeiro de gente da sua rede social (família, amigos, fãs). Ou seja, essa desconfiança do público externo para os projetos pode ser minimizada pelo fato de o projeto já ter conseguido arrecadar uma certa quantia do que foi requisitado.
Como fica a questão do direito autoral em projetos de crowdfunding?

Daniel – No Catarse, 100% dos direitos autorais serão do dono do projeto. A idéia é criar com liberdade total. Tanto o apoio financeiro do público quanto as recompensas devem ser dados por vontade de que o projeto aconteça, antes de mais nada.

Agora, podem surgir sites de crowdfunding onde a propriedade intelectual é compartilhada. Não vejo problema em relação a isto. Porém no Catarse os direitos serão 100% do autor.

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