Iloma Sales (editora do Mobi A Tarde) fala sobre jornalismo e mobilidade

Os dispositivos móveis representam o futuro do jornalismo. Pelo menos essa é a ideia propagada em teses, palestras e mídias especializadas em tendências para o jornalismo. A afirmação precisa ser um tanto relativizada, apesar de concordar que não há como pensar jornalismo sem pensar em mobilidade, seja na produção ou no consumo.

Nessa entrevista, com a jornalista Iloma Sales (siga também a moça no Twitter), editora-coordenadora do Mobi A TARDE, desafios e oportunidades para o jornalismo móvel estão em pauta. Iloma Sales destaca que as experiência em mobile no Brasil ainda segue a lógica transpositiva “É preciso se preocupar com o que vamos oferecer e em qual suporte este conteúdo estará. Não devemos estar numa nova mídia só por estar”. Por fim, a editora do Mobi A TARDE questiona: “Há muito, parafraseando António Fidalgo, o celular abandonou sua natureza primária: a de telefone. Será que esta frase não caberia ao jornalismo?”

Confira a entrevista abaixo.

Yuri Almeida – No processo de convergência midiática os dispositivos móveis atuam como protagonista ou tornaram-se a grande aposta das empresas de comunicação. Existe vida para o ciberjornalismo longe da mobilidade? Como você avalia a adaptação e estratégias dos jornais brasileiros e, principalmente, da Bahia, ao cenário mobile?

Iloma Sales – Vejo e concordo com vários estudiosos e especialistas no assunto ao perceberem os dispositivos móveis como uma tendência. É uma via sem volta, assim como foi o advento da Internet. Contudo, enxergo a inserção das empresas de comunicação no Brasil como algo ainda experimental. Não sei te dizer como está agora, mas quando estávamos para lançar o Mobi A TARDE – há quase 2 anos – soube que apenas o Jornal do Commercio (JC), do Recife, e o Grupo A TARDE, da Bahia, montaram equipe para tratar e trabalhar conteúdos para dispositivos móveis. Migrei de editora de um portal (A TARDE On Line) para o desafio de estruturar, pensar, um conteúdo para estes dispositivos.

Desde então, tenho navegado por outros conteúdos e vejo muito material automatizado. A partir disso, temos aí a repetição da primeira de uma das fases da Internet, com um diferencial: antes a transposição ocorria do impresso para o meio digital, agora é de digital para digital, que se mescla à terceira fase pelos dispositivos de última geração já permitirem conteúdos multimídia. No entanto, as empresas brasileiras que não montaram núcleos para tratarem estes conteúdos para celulares e outros dispositivos móveis como os tablets, automatizaram o serviço puxando o conteúdo de seus portais. Resultado: textos longos, cortados, links “quebrados”, infográficos em flash que não funcionam em alguns aparelhos. É preciso se preocupar com o que vamos oferecer e em qual suporte este conteúdo estará. Não devemos estar numa nova mídia só por estar. Tem que haver forma.

YA – O Brasil já conta mais de 190 milhões de linhas de celulares, entretanto contamos na mão do Lula as experiências em que o leitor pode enviar notícias, imagens, vídeos a partir de aplicativos para os jornais via celular. Você acredita que as empresas de comunicação irão apostar na colaboração via mobile?

IS – Sem dúvida! Apesar dos mais de 190 milhões de chips – prefiro me referir a chips do que a linhas, pois pode remeter ao sentido de pós-pago – mais de 80% destes ainda é de pré-pagos. Esta ainda é uma barreira a ser vencida. Quem tem um pré-pago pensa muito antes de gastar seus créditos enviando algo. É preciso uma política de telecomunicação mais aberta, para que a disputa se acirre entre as empresas que operam no mercado brasileiro e outras possam entrar. Em contrapartida, uma vantagem é o crescimento da venda de smartphones. Os pontos de acesso (PAs) de rede Wi-fi no País têm crescido. Bom sinal!! Assim, por mais que sejam usuários de smarts pré-pagos, em algum momento eles poderão e quererão navegar em seus “brinquedinhos”. Ainda assim, considero que temos muito a vencer.

YA – “Pensar” o jornalismo móvel me parece concentrar-se ainda na “técnica” e não nos aspectos culturais de produção e consumo. Sobra técnica e falta qualidade no jornalismo móvel?

IS – Concordo contigo. Em parte! (risos). A técnica é necessária seja lá em qual suporte você vá trabalhar. O fazer jornalismo também não muda. O que muda é a audiência à qual se vai atingir. Para isso, é preciso, antes de mais nada, dados estatísticos (pesquisas qualitativas e quantitativas) que te deem um Norte. Para citar um exemplo, hoje no Mobi trabalhamos (eu e equipe) com um acompanhamento hora a hora e por dia dos canais e matérias mais acessadas, além do monitoramento que faço no critério de visualizações. É preciso saber o que meu cliente quer ver e quem é esta audiência. Tenho controle até dos tipos de aparelhos utilizados. Sendo assim, a técnica ajuda? Sim, muitíssimo! Mas, tenho que saber uni-la ao jornalismo para hierarquizar a notícia e adequá-la para tentar agradar a maioria.

YA – Produção me lembra formação…Estamos preparados para tal desafio? E o que dizer da faculdades? A grade curricular está adequada às necessidades profissionais contemporâneas?
IS – Infelizmente nossa academia não está preparada e, por consequência, não consegue preparar profissionais multimídia como o mercado pede atualmente. Percebo que a Internet trouxe com ela uma leva de autodidatas. Óbvio que devemos saber, assim como aprendemos no jornalismo, quem são as fontes confiáveis. E isso também é possível na web. O que quero dizer é que isso tem ajudado aos jornalistas mais inquietos a buscarem se atualizar. Além disso, as especializações têm sido uma boa opção para ampliar esse conhecimento. Mas reconheço a falha da grade curricular e aproveito para fazer um apelo: é preciso repensar o jornalismo que se ensina nas faculdades urgentemente. A velocidade das redes sociais e das novas tecnologias nos pede isso. Temos que já pensar como a Universidade de Columbia, em Nova York, que criou um centro voltado para o jornalismo digital (http://knightcenter.utexas.edu/pt-br/node/3360).

YA – Historicamente jornalismo e publicidade andam de mãos dadas. Celular implica sobretudo personalização, a publicidade personalizada já uma realidade, mas não podemos dizer o mesmo do jornalismo. Personalização seria a palavra-chave nesse contexto para o jornalismo, tendo em vista as estratégias da publicidade em focar nos “nichos” e não na “massa”?

IS – Bem! Creio que ainda seja cedo para te responder isso. Mas, percebo essa tendência à segmentação tanto nos impressos quanto nos digitais. Há quem diga o contrário! Vale! E, me arrisco ao tentar descrever o que acho que se sucede: o perfil do usuário/leitor vem mudando. Isso é fato! Junto a isso, temos o tempo que já nos é caro e escasso. Assim, penso que esse novo consumidor de conteúdo deseja encontrar facilmente o que busca e a estruturação por “nichos” lhe traz essa facilidade. Diante de tanta informação para ser degustada, é preciso mostrar o caminho para ele. Como exemplo, temos redes sociais voltadas a profissionais, outra só para quem curte música e assim vai.

YA – Já que o Polvo Paul faleceu e não teremos mais previsões…Nos próximos cinco anos, qual a expectativa e tendências para o jornalismo móvel?

IS – Temos muito a crescer ainda. É preciso saber usar, de forma criativa, todas as possibilidades que estes dispositivos nos disponibilizam. E isso para o jornalismo, num mercado cada vez mais competitivo, será essencial. Costumo dizer que subutilizamos o real potencial destes aparatos. Há muito, parafraseando António Fidalgo, professor de Ciências da Comunicação da Universidade da Beira Interior (Portugal), o celular abandonou sua natureza primária: a de telefone. Será que esta frase não caberia ao jornalismo? Convoco-os à reflexão.

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5 Respostas para “Iloma Sales (editora do Mobi A Tarde) fala sobre jornalismo e mobilidade

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  2. Acredito que, atualmente, o termo celular está se tornando obsoleto. Deixamos de usar celulares para termos smartphones, que está em uma crescente nas vendas. Além disso, as operadoras de celular estão oferecendo valores de pacotes de dados mais atraentes.
    Com tudo isso, o jornalismo móvel só tende a crescer também. Quando vamos ao cinema, basta reparar no número de pessoas que acessam canais de notícias pelos seus smartphones enquanto esperam o filme começar.
    Como Iloma observou acima, é importante que as empresas tratem a área com a devida atenção, não apenas utilizando conteúdo automatizado, mas sim uma equipe que poderá avaliar o que interessa para o leitor. Isso, sem contar com a formatação do texto, mais enxuto que o normal.

  3. Outra coisa que esqueci de escrever: nossos colegas jornalistas têm que levar a sério a plataforma. A internet via celular sofre o mesmo preconceito nas redações (e fora dela) que os sites dos jornais sofreram na 1ª fase do jornalismo na web.

  4. Bem lembrado, Bruno. O preconceito na plataforma móvel e aqueles que atuam nela existe. Porém o que me preocupa é que os celulares vem equipados com aplicativos “de fábrica” para acessar as redes sociais, contudo não existem aplicativos para acessar os jornais (excluindo os app para os produtos da Apple). Creio que essa parceria com as operadoras e fabricantes dos aparelhos é fundamental para potencializar o jornalismo móvel.

  5. É verdade, Yuri. Isso serve para transformar ainda mais as redes sociais como os principais meios de informação. Se não tiver no TT, não é importante…

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