A wikificação do jornalismo é mais uma postura em relação à produção e edição de textos do que uma questão tecnológica, diz Carlos D´andréa

A “wikificação do jornalismo” foi um dos temas abordados durante o #gpciber do #intercom2010 pelo Carlos d´Andréa. A proposta de relacionar a “filosofia wiki” as rotinas jornalísticas é deveras interessante, por isso eu e o Thiago Araújo entrevistamos o Carlos. A entrevista está excelente e vai para o “ar” na íntegra.

Yuri Almeida – No #intercom2010 você apresentou um artigo sobre a wikificação do jornalismo. Quais as principais características desse processo?

Carlos D´andréa – A noção de “wikificação do jornalismo” parte de um esforço de aproximar as possibilidades e desafios dos wikis e, em especial, da Wikipédia, às rotinas (cada vez mais esvaziadas de processos, diga-se) do jornalismo na web. Ao propor este conceito inspiro-me no que o neurocientista Kenneth Kosik chamou de “wikificação do conhecimento”.

São as características essenciais dessa wikificação:
– A atualização contínua de textos jornalísticos publicados na web, em detrimento da publicação de muitas páginas sobre o mesmo assunto e/ou com poucas informações adicionais sobre um acontecimento.
– A participação, em maior ou menor escala, do público na edição dos textos publicados.

Não necessariamente estas características têm que ser conjugadas, assim como nem todo conteúdo jornalístico em texto pode e deve ser wikificado.

É importante ainda dizer que o wiki, mais do que uma ferramenta, é uma metáfora que visa explorar, ao mesmo tempo ou em separado, as possibilidades de agregação de informações textuais em uma mesma página e de uma escrita efetivamente coletiva.

YA – A wikificação do jornalismo proporciona uma “atualização contínua” das notícias, por outro lado, a notícia não é beta. Como aliar atualização com exatidão da reportagem?

CD – “A notícia não é beta”. É preciso admitir que esta frase é instigante…

É fundamental explorarmos a palavra “beta”. No desenvolvimento de aplicativos, softwares etc, um programa está na versão “beta” quando chega à sua primeira versão completa, mais ainda passível de ajustes a serem feitas a partir de testes, inclusive com usuários finais. Duas das mudanças possíveis com a web 2.0 são a idéia de “beta perpétuo”, pois torna-se viável a incorporação de melhorias (e consertos) ad infinitum, e abertura total dos testes para o usuário comum, algo viável uma vez que os aplicativos estão em rede.

Assim, se consideramos algo beta é como algo passível de erros cujos impactos para os usuários são menores do que o benefício das correções posteriores a serem realizadas, a resposta é: não, a notícia não é beta. A busca pela precisão é e continuará sendo uma característica estruturante do jornalismo. Neste sentido, é inocente pensar que uma proposta de wikificação do jornalismo toleraria, ou mesmo incentivaria a publicação de notícias não-validadas, ou de rascunhos de textos.

E mais: não são os wikis (como ferramentas) que inaugurariam esta possibilidade de correção a posteriori no jornalismo. Em portais e blogs os editores frequentemente corrigem informações, muitas vezes de fácil checagem prévia, após sua publicação. Às vezes sinalizam as correções, outras vezes não. Neste sentido, os wikis são inclusive mais transparentes, porque mantêm aberto o acesso ao histórico de edições.

Um outro aspecto do beta é a idéia de que um bem informacional, seja um software, seja uma notícia, não precisa ser um bem acabado, isto é, é passível de melhorias constantes, inclusive a partir de um trabalho distribuído e em rede. Neste sentido, penso sim que o jornalismo e a notícia podem ser beta. Axel Bruns, no livro “Gatewatcher”, traz a idéia de “unfinished news”, que é uma das características do modo “open news” proposto por ele. Para o autor, trabalhar com notícias não-finalizadas é reconhecer de que elas nunca estão prontas, pois estão inseridas em um ambiente dinâmico e submetidas a uma diversidade de perspectivas que torna necessária sua atualização e reelaboração constantes.

Partindo da idéia de que toda notícia advém de um fato reconhecido como de interesse jornalístico, uma discussão que enriqueceria bastante este debate é retormar a própria noção de “fato jornalístico”, conceito básico das teorias da área. Será que todas as matérias publicadas em site noticioso têm como ponto de partida um fato jornalístico que de fato as justifiquem? Ainda que os critérios de noticiabilidade sejam negociados caso a caso, eu responderia com certeza que não, nem todas as matérias publicadas trazem um fato efetivamente novo e relevante. Assim, pergunto: não poderia ser um texto editado posteriormente com acréscimo de informações que não contradizem o fato jornalístico que a originou? Na perspectiva da wikificação, sim.
Esse é um dos pontos de partida para futuras pesquisas…

YA – O jornalismo dos mass media ainda é muito “autoral” potencializa-se mais o “saber fazer” de cada repórter do que o conjunto de “saberes” da redação. Nessa perspectiva de “edição colaborativa” quais os impactos nas rotinas produtivas jornalísticas?

CD –  Sim, o jornalismo como conhecemos é essencialmente autoral, e tem no repórter uma figura central na rede de produção, ainda que (antigamente pelo menos) uma série de outros profissionais (do pauteiro ao editor) tivessem funções importantes para que o trabalho do “autor” fosse mesmo bem acabado. Não custa lembrar que o repórter-autor é também o protagonista do grande mito que se construiu em torno do jornalismo no século XX. O super-man jamais podeia ser um editor, quero dizer.

Neste contexto, tem pouco glamour o texto wikificado – basta lembrar que um wiki caracteriza-se mais pelo trabalho duro e contínuo do que pelo esforço pelo reconhecimento público dos colaboradores. Um texto jornalístico wikificado, por ser fruto do trabalho de muitos, em geral não tem a marca clara de nenhum de seus colaboradores, pois tem um pouco, mas o suficiente de cada um deles. Pessoalmente, preocupo-me com o resultado final: guardadas todas as ressalvas e circunstâncias, um texto jornalístico wikificado pode ser melhor, quero dizer, mais informativo, mais completo e – porque não – mais agradável de ler do que um texto autoral.

Um outro aspecto importante aqui é o resgate do papel da edição. Pesquisas no Brasil e no exterior mostram que, especialmente em redações online, há um esvaziamento da edição jornalística. Cada vez menos os editores sentam com seus repórteres para discutir uma matéria ou mesmo a lêem antes de publicação. A wikificação é uma das formas possíveis de retormar a edição, desta vez, porém, de forma aberta para os todos ou alguns membros da redação e, talvez, também para o público.

Thiago Araújo (TA) – Quais seriam as habilidades necessárias que o jornalista deve desenvolver para trabalhar em um ambiente de rotinas wikificadas?

CD –  Do ponto de vista técnico, creio que são muito poucas as habilidades adicionais perto do que um repórter de uma redação online já faz. Um wiki, ou um CMS que dê suporte à wikificação, caracterizam-se pela simplicidade de uso. Creio que as novas habilidades estão bem mais ligadas à postura, ao modo de lidar com a autoria, como dissemos na questão anterior. Seria necessário tornar-se um jornalista com “espírito wiki”, isto é, um foco constante na colaboração, na melhoria permanente do conteúdo, com respeito e espírito crítico em relação ao trabalho do colega. Acredito que estas habilidades são mais difíceis do que o domínio técnico de qualquer ferramenta…

YA – A edição colaborativa implica também incorporar a participação dos leitores nas etapas produtivas. Como moderar e incentivar esse processo?

CD – Como disse antes, entendo que não necessariamente, ou imediatamente deve-se incorporar os leitores no processo de wikificação. O “ideal” (no sentido da inovação, da pluralidade etc) é que sim, mas principalmente este tem que ser um processo planejado e avaliado constantemente.

Sem fugir do debate, devolvo esta pergunta aos demais estudiosos e editores do jornalismo colaborativo. A questão central de qualquer projeto de jornalismo colaborativo é como dosar a abertura dos portões de entrada e, especialmente, de saída de informações.

O que os wikis têm de específico? Se pensarmos na Wikipédia, a possibilidade de publicar um conteúdo sem aprovação prévia. Isso é uma ruptura e tanto para as práticas editoriais que conhecemos. Mas pensemos no recurso Revisões Assinaladas, adotado há pouco mais de um ano pela Wikipédia em alemão. Ele permite que uma informação seja publicada com destaque apenas após a aprovação de um dos vários editores previamente credenciados. Assim, criaram uma espécie de “sala de espera” da informação. O leitor pode optar pela leitura de uma versão mais atual, mas não verificada, ou ler a versão assinalada. Desde que a diferença entre as duas versões do texto fique bem clara, parece-me uma boa opção, inclusive para o jornalismo.

De todo modo, preciso dizer que minha tendência é ser conservador, até para que os avanços na parceira da redação e do pública sejam significativos e duradouros. Acredito ser melhor abrir pouco os portões no início, e aumentar o espaço para participação externa com o tempo, e mesmo fechar quando necessário.

YA – No artigo você defende que a “wikificação” do jornalismo pode evitar um número excessivo de páginas publicadas. Penso que tal modelo fortalece também a memória jornalística diante de um fato. Esse seria um modelo a ser seguido pelos jornais, tendo em vista que eles são “fontes históricas” da sociedade?

CD – A memória é um ponto chave desta proposta! Em geral pensamos a memória jornalística como uma fonte de pesquisa para retomarmos ou entendermos algum momento histórico muito importante ou mais antigo. Temos que pensar, no entanto, que com o advento dos mecanismos de busca o hábito de recuperar informações se tornou uma prática mais do que rotineira – é a principal atividade de muitos usuários na internet, aliás. Quando uma pessoa usa um mecanismo de busca interno de um portal para procurar informações gerais sobre uma pessoa ou um acontecimento, em geral o que aparece? Uma lista enorme de páginas publicadas sobre o assunto, e não uma página que o ajude a sintetizar o fato e encontrar caminhos para aprofundar a pesquisa.

Sintetizar um fato sempre foi uma função das enciclopédias e publicações afins, alguém dirá. E a memória oferecida pelo jornalismo se dá apenas a partir dos fatos pontuais noticiados. Isso fazia todo o sentido no tempo em que o papel (e o noticiário) do jornal de ontem tinha como destino as gavetas de colecionadores, os arquivos públicos e, principalmente, os balcões de peixarias. Não custa lembrar que, nessa época, enciclopédias eram atualizadas em anuários, e olhe lá… Pensando na era que conjuga instantaneidade excessiva, mecanismos de busca e bases de dados, eu me pergunto se o jornalismo não deve enfrentar de frente a responsabilidade pela memória do passado recente, ou mesmo mais remoto.


TA – Além da ferramenta wiki, quais outras formato você enxerga para a incorporação em rotinas jornalísticas?


CD – Como disse, entendo o prefixo wiki da expressão wikificação mais como uma metáfora do que como um condicionamento tecnológico. Neste sentido, tenho a impressão que a maioria dos CMS, desde que devidamente adaptados, poderia incorporar características técnicas que permitiram a wikificação.

Uma característica fundamental da wikificação, ao meu ver, é o acesso aberto ao histórico de edições de um texto –  isso as ferramentas wiki têm como função técnica nativa, mas outras plataformas têm condições de absorver. Por exemplo, o site do The Guardian exibe, em cada matéria, um link chamado “Article History” onde estão listados as principais ações editoriais realizadas naquele texto: data e hora de publicação, da última modificação, eventual destaque na página principal. Isso é um indício claro que a matéria foi modificada, e que dar visibilidade a estas edições é algo relevante na relação de confiança estabelecida com o leitor. Ao rigor, este recurso do The Guardian é apenas uma versão melhorada do “Atualizado em…” adotado por alguns dos principais sites jornalísticos. Numa visão mais otimista, por outro lado, pode ser visto como uma visibilidade à wikificação já praticada.

Voltando à pergunta, e retomando as questões anteriores, novamente aqui a wikficação parece-me mais uma postura em relação à produção e edição de textos do que uma questão tecnológica.

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5 Respostas para “A wikificação do jornalismo é mais uma postura em relação à produção e edição de textos do que uma questão tecnológica, diz Carlos D´andréa

  1. Pingback: JORNALICES | Jerónimo blogging about Media & Journalism

  2. Carlos,

    Realmente interessante essa postura de wikificação. Mas concordo com você quando a apresenta de forma conservadora porque realmente a abertura completa seria caótica, seria um jornalismo cooperativo e não colaboratívo e isso me parece um tanto impraticável.

    A questão das edições em histórico me parece uma adequação daquelas pautas prolongadas que vão alimentando as os jornais por dias com acontecimentos que vão sendo acrescentados. Entendi que o wiki juntaria essas informações na mesma página, por um lado é vantajoso, mas por outro o sujeito que estava acompanhando no dia anterior pode precisar reler o que já sabe.

    A grande chave da wikificação me parece ser a eliminação do GateKeeper muito mais do que a colaboração em cima de determinada notícia “oficial” a possibilidade de qualquer um tornar algo noticiável é realmente muito interessante.

    Parabéns pela entrevista ! Abç !!!

  3. Oi, Paulo,

    de fato uma das situações em que a wikificação se mostra possível é na fusão de “pautas prologandas”, ou das suítes jornalísticas. Ainda assim, creio que nem todos os textos deveriam ser fundidos, caberia ao jornalista identificar quando existe um novo fato jornalístico relevante o suficiente para gerar uma página adicional (que deveria estar linkada com as anteriores, naturalmente).

    Quanto à eliminação do gatekeeper, sei não… As funções se acumulam, w podem ser usadas de acordo com a situação.

    Valeu, abraço!

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