Documentário multimídia retrata cotidiano de Bom Despacho

A “naturalização” da mobilidade pelos espaços urbanos nos impede, as vezes, de observar certas nuances dos cenários. Bom Despacho é o terminal da Ilha de Itaparica que liga a ilha a capital baiana. Caótico é a melhor palavra para definir o funcionamento do serviço. Isso é clichê, sim, é o que todos dizem…

Entretanto, o documentário independente do Fabricio Ramos e Camele Queiroz permite um outro olhar sobre a realidade citada acima. A minha ideia inicial era apenas publicar os vídeos aqui no blog e deixar a cargo de cada um esse tal “olhar”. Porém, acho o material muito rico, no que tange as experiências antropológicas, o que me motivou a bater um papo com os idealizadores do doc.

Recomendo assistir primeiro o vídeo e em seguida acompanhar a entrevista que diz com a dupla.

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Entrevista sobre o doc com Fabricio Ramos e Camele Queiroz

Como surgiu a ideia de produzir o documentário?

Enfrentamos aquela mesma fila quando voltávamos de viagem num feriado anterior (dois meses antes do ano novo). A desorganização e a longa demora causam revolta, mas percebemos que muitos levavam a situação numa boa, fazendo a festa como podiam! Então nos veio a idéia de realizar um registro audiovisual de um dia de grande demanda no terminal, mas com foco no olhar dos usuários – e não na nossa opinião.

Na apresentação do doc é citado que a tese norteadora do trabalho é que existe uma relação entre lazer e opressão. O próprio enquadramento do vídeo dá destaque a situação e depoimentos caóticos. Na prática, o fato de definir uma tese não impede de captar outros fragmentos do “que é lazer, por exemplo?

Na verdade, sentimos na pele a necessidade de enfrentar 7 horas de fila para voltar para casa, num domingo. Além disso, todo o processo de embarque e a estrutura (e falta dela) do terminal e a presença ostensiva de policiais fortemente armados nos remetiam a um tratamento quase “carcerário”.   Tínhamos definido esse olhar enquanto realizadores, mas não quisemos aplicá-lo no vídeo. Preferimos adotar um outro procedimento: não faríamos pesquisa prévia e não reduziríamos a captação das imagens àquelas que se ajustassem ao nosso olhar prévio. Ao invés disso, estaríamos abertos a toda as situações, mesmo as contrárias à nossa visão. No processo de montagem, tínhamos 7 horas de material de todo tipo, inclusive cenas fortes de policiais armados com fuzis e um carrinho de criança sendo levantado, perigosamente, com o bebê dentro em meio a um pequeno tumulto, pois tornaria o vídeo panfletário e não era esse o nosso objetivo. Tínhamos também o nosso conceito de lazer, mas a proposta foi registrar o conceito que as pessoas ali no terminal tinham do lazer – o caráter autoral do vídeo, no caso, se manifestou no processo de montagem: construímos um “discurso” escolhendo as cenas e as falas que ficariam.

Em suma, o enquadramento do vídeo buscou uma aproximação coerente diante daquela realidade que, mesmo sendo caótica, demonstrava alguma ordem: a fila. O que a experiência in loco foi nos revelando é que as pessoas aproveitavam aquele tempo na fila como parte de suas práticas de lazer.

O tema do documentário é recorrente nos jornais baianos, porém sempre uma cobertura factual. Vocês acreditam que a produção multimídia de conteúdos que fazem parte do cotidiano auxilia na consciência dos cidadãos sobre determinado fato, como nesse caso o “caos” em Bom Despacho?

O jornalismo deve ser informativo. Já a nossa produção foi autoral, tem a marca e a carga dos autores. Não sabemos se ajuda na conscientização dos cidadãos, mas sugere uma reflexão para as pessoas que assistem, abre outras possibilidades do olhar sobre o fato e sobre o contexto filmado (reflexão proposta sempre da ótica do autor).

Qual a reação das pessoas ao saberem da realização do doc? Existiu alguma forma de “pressão popular” para se dar destaque a determinados enquadramentos?

Tínhamos um monte de expectativas (as vezes boas, as vezes tensas) sobre as possíveis reações – não só dos usuários, mas das autoridades, da polícia, da empresa que administra o Ferry-boat etc. A polícia não interferiu em nada. A empresa colaborou bastante facilitando o nosso acesso a diversas áreas. E as pessoas, os usuários, quase sempre simpatizavam, mas mantinham alguma distância. Alguns viam, sim, na câmera, a possibilidade de fazerem ecoar o seu descontentamento. Mas estes, normalmente e por várias razões, preferiam não gravar depoimento…

Em tempo, os autores devem seguir o “roteiro” ou ouvir “a voz do povo” e mudar a perspectiva do projeto?

Nós cremos que construir o vídeo é dialogar. Temos, claro, nossa visão, mas devemos estar não só abertos, mas atentos, a novas perspectivas – e até mudá-las se acharmos necessário. Sabíamos que nós, autores, realizamos o discurso do vídeo na filmagem, onde exercemos o nosso “poder” sobre o material filmado. Mas tentamos reduzir ao mínimo esse poder na etapa das filmagens, e mesmo na montagem, tanto que todas as imagens e sons do vídeo finalizado foram captadas no local das imagens: não há a “autoritária” voz em off (exceto a introdução logo no início) nem emprego de trilha sonora.

No caso do “Bom Despacho”, a opção foi contar inteiramente com o acaso: sabíamos que haveria muita gente, mas optamos por não fazer um roteiro (apenas pensamos em estruturar a filmagem para registrar, linearmente, um dia no terminal e dirigíamos as perguntas às pessoas segundo o tema que buscávamos, mas não interferíamos nas respostas).

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