Memória de Ouro: projeto resgata história dos jornais em Jacobina (Bahia)

Memória de Ouro é fruto da pesquisa acadêmica da jornalista Kívia Souza, cujo objetivo é resgatar a memória dos jornais publicados na cidade de Jacobina que fica a cerca de 330 km de Salvador. O Memória de Ouro é um acervo digital da imprensa da cidade onde é possível acompanhar a evolução dos jornais e a sua história. A memória jornalística, como já destaquei em um post anterior, é fundamental para a compreensão do jornalismo que fazemos atualmente, bem como os desafios futuros.

O projeto da Kívia é pioneiro e soma-se a iniciativas como o livro “Apontamentos para a história da imprensa na Bahia” na preservação da memória dos jornais baianos. Visitar o Memória de Ouro é obrigação para quem busca entender a história do jornalismo no estado.

Abaixo uma entrevista que fiz com a idealizadora do Memória de Ouro.

Yuri Almeida – Como surgiu a ideia do projeto? Quanto tempo foi dedicado?

Kívia Souza – A idéia nasceu em um momento de necessidade de material para pesquisa. Inicialmente tinha o interesse de fazer meu trabalho de conclusão de curso sobre um cinema antigo e extinto da cidade de Jacobina, o Cine Payayá. Porém, a única fonte impressa para pesquisa eram os jornais da época e um livro que conta a trajetória histórica do município e citava o tema. Pesquisando, descobri que na cidade havia mais que dois ou três jornais partidários que nasceram de interesses políticos, em épocas de eleições. Apesar de toda política envolvida, a imprensa de Jacobina participou e sentiu o impacto dos principais fatos históricos do país e do estado.

Isso me fascinou. Quis saber mais, mas não tinha onde procurar. Daí pensei no Memória de Ouro. Um livro que contasse toda a trajetória dos jornais que registraram a história do município. Precisei estar na cidade para ter contato com o material de pesquisa, que ainda tem difícil acesso. Foram três viagens para Jacobina dentro de um período de seis meses, dedicando cerca de cinco dias em cada viagem.

YA – Quais foram as fontes de pesquisa e como você avalia o acesso aos documentos históricos?

KV – O acervo do Arquivo Público Municipal de Jacobina foi encontrado ainda incompleto, pois não foi instituída, ainda, pela administração local, uma forma segura para conservação dos periódicos que lá circularam.

A maioria do acervo está arquivada de forma incorreta. Muitos jornais estão em se decompondo naturalmente. Alguns [poucos] foram digitalizados pelas famílias dos proprietários. Porém, a dificuldade em encontrar os dados necessários aplicados na metodologia persistiu.

O pouco tempo disponível para a pesquisa de campo, o desfalque no acervo e a ausência de familiares responsáveis pelas primeiras publicações, como A Primavera, O Centro e O Ideal, prejudicou o aprofundamento da pesquisa. Por conta disso foi priorizado o uso das imagens e das próprias edições para confirmar dados históricos.

Então, o projeto se materializou em um blog, com a idéia do acervo digital. Assim fica mais fácil explorar todo o material colaborativo que venha surgir dos próprios moradores, colecionadores, pesquisadores e familiares dos proprietários desses jornais.

YA – O que mudou para você, principalmente, no exercício do jornalismo, o estudo da memória dos jornais de Jacobina? Me parece que quanto maior o nosso conhecimento histórico sobre a evolução dos jornais mais fácil também se torna entender a nossa profissão.

KV- Mais fácil entender e mais fácil fazer. Foi com o Memória de Ouro que pude assimilar a relevância da história da imprensa. Principalmente, quando diz respeito a minha realidade. Dedicação de tempo para apurar e escrever deveria ser lei. Não basta saber, é preciso sentir para expressar. Pode até parecer clichê, mas essa é a essência do jornalismo. Estudar jacobina através dos jornais me fez conhecer outro lado da cidade onde morei durante 16 anos. Onde cresci e construí minha história.

Não vivi em outra época, mas pelo que posso constatar as pessoas davam mais valor ao momento e ao fato. Hoje tudo é muito superficial e o jornalismo não fica atrás. Os prazos são curtos. Os resultados são esperados e as metas devem ser cumpridas. Fico muito triste quando abro um jornal para ler, logo pela manhã, e a matéria está cheia de novas informações sobre o fato, porém recheada de erros. A qualidade do conteúdo, ou como se faz ele, se perde nesse processo.

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