Documentário multimídia retrata cidade baixa de Salvador

“Crush: histórias sobre uma ponte” é o título do registro documental e multimídia do jornalista Diego Mascarenhas. O documentário revela a rotina dos moradores e banhistas da Península de Itapagipe, na parte baixa da cidade de Salvador.

Para além da qualidade imagética e narrativa poética multimídia do documentário, o projeto mostra que um outro jornalismo é possível e que a fotografia pode ocupar o protagonismo nas narrativas jornalísticas.

Apesar do vídeo está abaixo sugiro acompanhar a entrevista que fiz com o Diego por e-mail e depois assistir ao doc. Teorizamos muito sobre o “futuro” do jornalismo e narrativas multimídias; temos aqui um bom exemplo de como fazê-lo.

[flash http://www.youtube.com/watch?v=LdaGzhSNQxQ%5D

Como surgiu a idéia de criação do documentário?

Ao longo da minha trajetória na faculdade de comunicação da UFBA desenvolvi especial interesse pela fotografia. Busquei cursos de extensão e outras maneiras de me capacitar nesta área. Cheguei ao final do curso com alguma experiência, a mais importante no Jornal A TARDE, onde trabalhei como repórter fotográfico por quase 1 ano.

Quando encarei o desafio de produzir meu trabalho de conclusão de curso (TCC), nos últimos semestres da FACOM, não pude me desviar do meu interesse. Resolvi então arriscar um pouco e investir em um produto pouco explorado pela imprensa baiana, o audiovisual fotográfico (ou slideshow, pouco importa a denominação).

Tinha que me arriscar porque não queria concluir meu curso fazendo uma fotorreportagem para jornal impresso. Para mim não fazia sentido repetir este modelo chato e ultrapassado de fotojornalismo. Também não queria realizar uma exposição fotográfica ou tratar de questões teóricas, não era a minha.

Precisava pensar em um produto que resolvesse a minha carência por espaço e visibilidade. Um produto que pudesse evidenciar a fotografia, colocando-a em primeiro plano no discurso jornalístico. Onde também não houvesse limitação de espaço para a informação audiovisual e todos pudessem acessar em qualquer canto do mundo a partir da internet. Pensei no slideshow porque este produto agrega as diversas linguagens jornalísticas e eu acredito que é isso que precisamos fazer e oferecer aos leitores/internautas. Se a tecnologia nos permite fazer isso, não temos porque fechar os olhos e fragmentar a informação, como fazem os principais sites e portais de comunicação baianos (A TARDE, CORREIO, IBAHIA.COM).

Com o objetivo em mente, bastava escolher o tema a ser documentado. Nessa hora tive que ser o mais objetivo possível. Escolhi a minha rua como locação para depois fazer um recorte mais específico. Além da minha ligação pessoal com o bairro (sou apaixonado pela Ribeira, onde vivo desde minha infância), precisava escolher uma região onde eu pudesse ir a qualquer hora do dia, qualquer dia da semana. Tinha que compreender um pouco da alma do lugar para fazer um registro mais fiel, mais sincero. Como o tempo era curto para me aprofundar sobre qualquer outro ponto do mundo, escolhi minha própria rua.

A idéia então era criar um documentário multimídia para a web (com destaque para a linguagem fotográfica), sobre as dinâmicas sociais em torno da Ponte do Crush, locação escolhida por reunir grande número de pessoas na orla da península itapagipana (cidade baixa de Salvador). Elegi a ponte porque precisava de um espaço onde eu encontrasse os mais variados perfis de frequentadores da região, mas não me limitei a este espaço físico ao fazer o registro documental.

Para documentar a beleza da região e as interações em torno (e sobre) da ponte, busquei um fio condutor para a construção da narrativa: as histórias ou pequenos depoimentos das pessoas sobre o lugar que frequentam. Exaltar a beleza da Península de Itapagipe e dar visibilidade ao comportamento e às interações dos banhistas foram os meus principais objetivos neste desafio.

Em quanto tempo foi realizado?

Realizei o trabalho entre os meses de agosto e novembro de 2009. Utilizei algumas fotos mais antigas, do meu arquivo pessoal, contudo a maioria foi feita no período citado. Dediquei os primeiros meses à pesquisa histórica sobre a ponte e realização de entrevistas, além da produção das fotografias. No final, o trabalho mais pesado: selecionar o material, construir o roteiro e editar o documentário fotográfico.

Softwares e equipamentos utilizados na elaboração do projeto?

Utilizei a Nikon D300 e a Canon EOS 30D, ambas emprestadas de amigos. As objetivas mais exploradas durante o processo, apesar de uma ampla oferta de material, foram a Nikkor 17-55mm e 70-200mm, ambas autofocus f2.8 (quando a câmera era a Nikon D300), e a lente Canon 18-55mm autofocus f3.5 (durante o uso da Canon).

Claro que não me limitei ao uso das câmeras DSLR, profissionais digitais. Também recorri à Sony-Cyber Shot DSC W-50 de 6.0 mega pixels. Câmeras
digitais compactas são leves, práticas e não chamam tanto a atenção dos fotografados. Foi com ela que gravei o único vídeo aproveitado no documentário.

Já o áudio foi gravado com o meu celular, um LG Cokkie, que grava arquivos no formato “ARM”.

Gostaria de ter usado somente equipamentos simples, como as câmeras digitais compactas, para mostrar que é possível produzir boas reportagens ou documentários fotográficos à baixo custo, mas penso em, futuramente, transformar o trabalho em uma exposição fotográfica, daí precisava de fotografias com boa resolução, feitas com câmeras profissionais.

O documentário conta a história de uma comunidade local. Você acha que o hiperlocal pode potencializar o jornalismo multimídia?

Tem sido uma tendência do jornalismo impresso dar maior ênfase ao hiperlocal, exacerbando o valor notícia da “proximidade” para então consolidar um mercado consumidor. Acho, contudo, que este não é um privilégio do jornalismo impresso. O hiperlocal, desde que bem explorado, pode sim potencializar o jornalismo multimídia. Cabe ao jornalista se aprofundar sobre questões universais na abordagem do tema/fato, sem esquecer das singularidades do local. No caso da ponte do Crush, as especificidades da região foram um prato cheio para o meu registro multimídia, e isso pôde ser visto não só em fotos, mas também nas falas das fontes ou na escolha da trilha sonora.

Inicialmente, pensei que minhas fontes seriam o público alvo do meu documentário. Me enganei, percebi que o hiperlocal pode interessar a mais pessoas do que imaginamos e extrapolei os limites da Península de Itapagipe. Recebi comentários via twitter, e-mail e através do próprio youtube (onde hospedei o doc), de pessoas que nem conheciam a região.

A situação mais curiosa da quebra de “fronteiras”: Uma fonte disse que uma amiga italiana ligou para ele dizendo que o tinha visto no youtube ao fazer uma pesquisa de vídeos sobre a cidade baixa.

Frequentemente os bairros periféricos são enquadrados nos noticiários a partir da violência, pobreza e tragédias. Qual a reação dos cidadãos entrevistados/fotografados ao saberem da pauta; que era mostrar, sobretudo a beleza do local, o seu cotidiano?

Sempre me revoltei ao ouvir soteropolitanos falarem que não conhecem a Península de Itapagipe. A revolta era (e ainda é) ainda maior quando ouvia depoimentos de pessoas que conheciam a região apenas através dos noticiários policiais. Precisava mostrar de alguma maneira o outro lado dessa região. Era este um dos meus desafios.

Quando abordava as fontes, explicava os objetivos do trabalho e sempre era muito bem recebido. Mas a autorização do uso da imagem era acompanhada de uma condição, dar um retorno após a execução do trabalho. Não sei se por desconfiança ou vaidade, todos queriam dar seus e-mails para receber em outra oportunidade o link com o “vídeo” sobre a ponte do Crush (ou sobre suas histórias). Assim eu fiz e tive um retorno positivo, que me deixou alegre e tranquilo.

Você é repórter fotográfico e deve perceber que as fotografias são utilizadas no jornalismo (quase sempre) como complemento das matérias. Nessa perspectiva do jornalismo multimídia você acredita que as imagens podem obter um valor maior nas narrativas jornalísticas?

Além da falta de espaço para grandes publicações fotográficas em veículos impressos (onde as fotos sempre complementam os textos), os repórteres fotográficos também sofrem com a má utilização de sua produção na web, principalmente porque a rotina produtiva dentro das redações não mudou.

Com o jornalismo multimídia as imagens ganharam um valor incomparável. Porém temos um problema: A tecnologia está a nosso favor, mas ainda se planeja o jornalismo pensando no jornal impresso, e nesse contexto, o repórter fotográfico continua ocupando um lugar secundário na produção de informação. Quem perde é o leitor/internauta.

Hoje vemos grandes exemplos de jornalismo multimídia pelo mundo. O portal de notícias argentino “Clarín” (http://www.clarin.com/diario/especiales/index.html) e a “Magnum In Motion” (www.inmotion.magnumphotos.com), da agência fotográfica norte americana Magnum, desenvolvem desde 2004 webdocumentários fotográficos que merecem ser vistos. No Brasil, o coletivo Garapa (www.garapa.org) é o grande produtor de audiovisuais desse tipo, mas ainda temos muito que produzir. Espero que os grandes portais brasileiros abram os olhos para esse tipo de produção e parem de fragmentar informação.

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