Mapa colaborativo

Compartilho o bate-papo que tive com a turma do Blog F5 sobre mapas colaborativos. A minha tese é que o hiperlocalismo ainda reserva para os cidadãos-repórteres e o mainstream midiático a melhor oportunidade para otimizar a produção de conteúdo colaborativo, portanto o mapa colaborativo é útil tanto como interface como ferramenta.

Confira na íntegra:
Blog F5 – Qual a finalidade do mapa colaborativo?

Yuri Almeida – Mapas colaborativos são escritas coletivas sobre determinados acontecimentos baseadas, sobretudo, no local como componente de noticiabilidade e interação entre os cidadãos. Desta forma, um jornal pode realizar um mapeamento das áreas de trabalho escravo, uma Ong ambientalista pode mapear as zonas desmatamento da Floresta Amazônica, por exemplo. Os mapas funcionam tanto quanto um “infográfico”, complementar a uma reportagem multimidia, ou pode ser a própria interface para a distribuição de notícias, tendo como filosofia o jornalismo hiperlocal. Um exemplo é Outside.in que agrega post de blogs baseados em um determinado lugar e apresenta-os em um mapa

O que merece destaque é o processo de apropriação coletiva dos mapas e a potencialização do local como elemento estruturante de narrativas contemporâneas. Os mapas, historicamente, serviu ao uso militar ou demarcação territorial de um estado/país. Porém, com a internet e as novas tecnologias de informação e comunicação, os usuários começaram a criar suas próprias visões/trilhas no espaço urbano, o que irá alternar os sentidos atribuídos ao lugar e o sentido de pertencimento a determinada localidade.

Este processo também atinge o modelo de construção e distribuição da notícia, tendo em vista que as “notícias de vizinhança” são potencializadas neste contexto.

BF5 – As notícias com apenas vídeos e fotos estão começando a perder espaço? Esse seria um dos motivos para a criação do mapa colaborativo?

YA – Penso que as fotos e vídeos não começam a perder espaço, pelo contrário, o uso deles potencializa as narrativas multimídias.
Quando você cria um mapa colaborativo a idéia é construir coletivamente o sentido daquele local (simbolizado pelo mapa) ou sinalizar as atividades que ali ocorrem (penso no sentido jornalístico, como por exemplo sinalizar as áreas mais violentas de uma cidade, como o Wikicrime). O mapa, simbolicamente, é a materialização do espaço, então, ele pode ser utilizado como recurso visual (mostrar o caminho percorrido pela Coluna Prestes) ou ambiente para o mapeamento dos buracos existentes em uma cidade, como o Buracos de Fortaleza.

BF5- O mapa colaborativo pode se tornar uma nova tendência no jornalismo?

YA – Sem dúvida. Agora, os mapas não podem ser meros recursos visuais ou infográficos multimidia. Os mapas colaborativos devem estar associados, sobretudo, ao hiperlocal, aquilo que afeta diretamente a comunidade, seja um semáforo quebrado ou aumento da cobrança de IPTU.

É preciso transformar o mapa em um espaço de visibilidade pública, em um espaço de informação sobre as notícias da vizinhança. Esta concepção, da mediação e produção de conteúdo baseadas no local, mostra a evolução do jornalismo colaborativo. Se antes a preocupação era apenas abrir dos códigos de produção, agora a questão é articular o território, a informação e as redes sociais, norteadas não apenas pelo interesse comum, mas cada vez mais pelo lugar comum, valorizando o espaço urbano e os laços geográficos.

O grande desafio (como sempre) é o modelo econômico a ser desenvolvido pelas empresas de comunicação que garantam a sustentabilidade do projeto. Mas já existem boas experiências em curso feitas por grandes jornais, como o New York Times lançou o The Local, cujo modelo de captação é focado nos comerciantes locais, O Globo lançou o Bairros com a mesma filosofia. O que as empresas precisam entender é que se um veículo aborda determinada cidade, acabar por atrair atenção dos comerciantes como das autoridades locais, devido a efetividade da pauta.

BF5 – O mapa pode ser benéfico para notícias do dia a dia?

YA – Para evitar teorias vou citar uma experiência interessante que acontece este ano em Fortaleza. Um grupo de blogueiros resolveu iniciar um mapeamento colaborativo dos buracos da cidade como forma de protesto. A ação conquistou corações e mentes da comunidade (diretamente afetada pelo problema) que passou a indexar os malditos buracos. A pressão e visibildade do protesto foi tamanha que despertou o interesse dos meios de comunicação, que deu amplitude ao problema. Obviamente os gestores públicos sentiram a força do movimento e apresentaram medidas para sanar os buracos.

Então “o segredo” é identificar um problema e criar mecanismos que envolva os cidadãos na construção da notícia. Para isso é preciso se relacionar com as redes sociais, conversar com as pessoas e convidá-las para escreverem juntos uma pauta.

Por mais que o jornalismo colaborativo tenha mostrado seu potencial em desastres naturais e acidentes, o hiperlocalismo ainda reserva para os cidadãos-repórteres e o mainstream midiático a melhor oportunidade para otimizar a produção de conteúdo colaborativo.

Anúncios

Uma resposta para “Mapa colaborativo

  1. Pingback: Twitter Trackbacks for Entrevista sobre mapa colaborativo | Herdeiro do Caos [herdeirodocaos.com] on Topsy.com

Potencialize o diálogo. Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s