Diálogo sobre o jornalismo colaborativo: o processo de sustentação de um site colaborativo é cruel, diz Rafael Sbarai

Rafael Sbarai é o entrevistado desta edição do Diálogo sobre jornalismo colaborativo, cuja a idéia é discutir com pesquisadores e produtores os desafios e oportunidades para o jornalismo colaborativo. Sbarai é jornalista, mestrando em conteúdo colaborativo, gestor de mídia social e consultor de projetos web e colaborativos de VEJA – Veja.com, além de criador do Blog De Repente.

Na entrevista realizada por e-mail, Sbarai comenta que o profissional da redação deve ser o principal motivador para o desenvolvimento de um modelo híbrido de jornalismo, reunindo jornalistas e colaboradores. Sobre os critérios de noticiabilidade, diz que a saída “é uma seção aos moldes do Jornalismo Literário (New Journalism): trazer notícia hiperlocal com um ingrediente diferente”.

Confira a entrevista na íntegra:

0 – Vi que faz mestrado sobre conteúdo colaborativo. Qual é o foco da pesquisa?

Comecei o mestrado logo após o término da graduação, em 2008. Vou defender uma dissertação sobre a motivação que o que se considera como “cidadão-repórter” tem ao produzir conteúdos jornalísticos em sites colaborativos. Vou buscar a motivação pessoal dos maiores produtores de conteúdo em três ambientes virtuais: Minha Notícia (iG), iReport (CNN) e OhmyNews.

1- Me assusta ainda que a maioria das experiências em jornalismo colaborativo foquem a participação individual na construção de notícias. A lógica é: mande a sua notícia. O jornalismo colaborativo não deveria potencializar a construção das notícias em rede? Potencializar o saber do coletivo?

Essa questão varia de formato. O mande sua notícia é o chavão mais simples e prático para quem está do outro lado. Não sei até que ponto o cidadão quer perder parte de seu tempo para construir uma informação. Muitos querem produzir o conteúdo e vê-lo em rede no mesmo dia. Sentimento de pertencimento a rede e estímulo moral de ver seu conteúdo em destaque em um portal ou site noticioso. A questão de construção de notícias em grupo vai mais ao que rotulam como Jornalismo Financiado. O Spot.us faz algo parecido.

2- Apesar da participação de novos atores na produção de conteúdo, os críterios de noticiabilidade utilizados pelos cidadãos-repórteres são semelhantes aos do mainstream midiático. Como modificar esta prática?

O critério de noticiabilidade, infelizmente, dá o formato da informação. É difícil de fugir do lugar-comum. Uma saída utópica é a seção aos moldes do Jornalismo Literário (New Journalism): trazer notícia hiperlocal com um ingrediente diferente é super válido, por exemplo. Mas qual empresa vai querer isso? Essa arte não é uma habilidade específica? É tudo muito complicado.

Hoje acredito mais no mining (mineração de dados) e como o cidadão pode contribuir para este tipo de situação. Um bom exemplo é o mapa de homicídios do NYT – http://projects.nytimes.com/crime/homicides/map. O recurso une extração de dados locais (mining), arte, jorrnalista para agregar os dados e reuní-lo da melhor forma possível e o cidadão, presente nas ruas de Nova Iorque todos os dias. Este é um modelo híbrido que deve ser seguido.

3- O jornalismo caminha para o hiperlocalismo. Temos neste processo uma oportunidade de romper com a cobertura monotemática de desastres naturais, típica do jornalismo colaborativo?

Eu acho que não. O Hiperlocalismo, o geotaggeamento e o uso de plataformas móveis para produção de conteúdo só contribuem para uma cobertura que não é monotemática, mas de interesse da sociedade. Um canal que faz sucesso lá fora e foi adquirido recentemente é o outside.in, do Steven Johnson. Ele reúne essas características descritas acima.

4- Na lista divulgada pelo Twitter dos termos mais frequentes em 2009, o #iranelection figurou em primeiro. O dado me fez pensar em como o jornalismo colaborativo é mais eficaz em redes socias do que em plataformas destinadas especificamente para reunir textos. Tem algum fundamento esse pensamento?

Trata-se de uma tremenda discussão. Até que ponto o #iranelection é Jornalismo Colaborativo? Primeiro precisa-se definir o que é Jornalismo Colaborativo. Fiz isso em um artigo que disponibilizarei logo mais no blog. Falam do Twitter como sinônimo de Jornalismo Participativo. E isso é errado. Temos que resgatar as funções e definições de Jornalismo.

As redes sociais apenas potencializam a possibilidade de reunir conteúdos interessantes de casos específicos. Ficou mais prático e fácil em coletar dados e informações. A única questão é como isso será checado posteriormente para a publicação. O que tornou-se mais eficaz é a comunicação instantânea que permite rapidamente a produção de conteúdos participativos.

5- No Brasil, o número de celular é proporcional ao número de habitantes, porém os jornais ainda não criaram aplicativos que potencializem a colaboração em mobilidade. Previsões otimistas para a produção colaborativa mobile?

Aos poucos, isso é lançado. O Guardian começou a se movimentar e produziu inovações no meio: http://www.guardian.co.uk/iphone No mais, não acredito apenas no celular como plataforma de conteúdo. Nós, jornalistas, devemos pensar em dispositivos móveis. Isso transcende o aparelho. Vai para tablets, e-readers, televisão, carro. Enfim, terá a necessidade de adaptar-se o conteúdo a este tipo de suporte e não apenas ao celular.

Sobre previsões, não gosto muito de citá-las, até porque o Brasil é muito atrasado em relação ao resto do mundo em relação a mobile. Enquanto lá fora fala-se em ferramenta de recomendação, aqui o legal é mandar SMS.

6- E a tal credibilidade? Como fazer para elevá-la nas produções colaborativas? Quem deve ser o responsável pela veracidade das informações nos jornais?

A credibilidade sempre será um artefato posto em xeque nas redações. Casos vistos no iReport, como o anúncio da “morte” de Steve Jobs, exemplificam a necessidade de um gatewatcher. A questão é tomar muito cuidado com esta prática. Mas acredito que já exista em alguns profissionais bom senso ao saber a importância que este tipo de colaboração tem. Nem toda empresa está preparada para a participação do internauta.

7- E financeiramente…O OhmyNews que por muito tempo foi (ou é) a experiência mais positiva do jornalismo colaborativo do ponto de vista da sustentabilidade parece dar sinais de declínio. Quais as saídas para manter os projetos? Você acredita na viabilidade do jornalismo colaborativo quanto produto jornalístico?

Infelizmente, os projetos colaborativos ligados à mídia tradicional têm grande possibilidade de sobrevivência. O OhmyNews é um dos meus objetos de estudo e quem está na área sabe de sua importância. A recente história da transição política da Coreia do Sul foi iniciada no OhmyNews. Mas a questão de sustentabilidade é um negócio sério.

O processo de sustentação de um site colaborativo é cruel. No final, sobreviverão projetos ligados às empresas de informação já conhecidas, que têm respaldo financeiro e, principalmente, jurídico para mantê-las. Teremos um ou outro destaque fora deste eixo, mas o que pode gerar consequentemente no futuro uma fusão com uma grande empresa midiática. É só ver o caso Newsvine e MSNBC.

O que fica de lição nos dois anos de mestrado e no trabalho com a colaboração é que o conceito que existe em torno da Colaboração não substitui o modelo tradicional de jornalismo. Um modelo híbrido do que é feito pode iniciar uma discussão de produzir novas narrativas jornalísticas. E o profissional da redação deve ser o principal motivador deste processo. Para tanto, deve acompanhar a tecnologia e não parar no tempo.

Atualizado às 16h42

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