Entrevista: Adriana Rodrigues fala sobre infografia, ciberjornalismo e bases de dados

O post da Adriana A. Rodrigues*As bases de dados na infografia interativa:algumas reflexões” levantou algumas questões sobre a temática. Se a palavra-chave do ciberjornalismo é a multimidialidade, a infografia deveria ser melhor aproveitada e utilizada pelos jornais, ou não? Essas e outras perguntas Adriana Rodrigues responde abaixo.

Yuri Almeida – Em seu post você argumenta que os infográficos datam das primeiras pinturas rupestres, mas as novas tecnologias e a Internet potencializaram a sua utilização, principalmente nos jornais. Quais as principais mudanças que você destacaria deste processo?

Adriana RodriguesAs pinturas rupestres, dentro da literatura infográfica, simbolizam os primeiros indícios da comunicação visual como um todo. A necessidade de comunicar-se, independentemente do suporte, é algo inerente ao ser humano, seja através de gestos, gritos, gravuras, etc.

Trata-se de um ponto de partida para pensar na evolução dos infográficos ao longo do tempo, onde as imagens sempre fizeram-se presente, de uma forma ou de outra. O desenvolvimento tecnológico, com softwares voltados para conferir qualidade e tratamento da imagem gráfica foi muito importante para que a infografia chegasse a este formato hoje. A década de 1980, por exemplo, vai assinalar como a consolidação da infografia mundial, difundida pelo jornal americano USA Today, onde houve o destaque da imagem gráfica enquanto discurso jornalístico. Daí, tem-se, na imprensa, a grande efervecência do jornalismo cada vez mais visual.  Quando a infografia migra para Web, ela potencialmente agegra as características do ambiente: é multimídia, interativa, tem atualização contínua,etc. A infografia na Web comporta toda a multimidialidade que a impressa não comporta, devido a característica do suporte. Esta é a principal mudança. Mas  também é preciso que o infografista saiba operar toda essa multimidialidade.

Concordo com o Andrew DeVigal,editor de Multimídia do NYTimes, quando ele afirma que um bom infográfico depende de uma boa história, mas que senão souber utilizar o ferramental tecnológico, não adianta produzi-lo. Penso que uma coisa está intimamente ligada a outra. São intercambiáveis. É evidente o conteúdo do infográfico – e aqui me refiro ao infográfico jornalístico – tem de estar coerente com os aspectos inerentes do jornalismo para constituir-se como tal, porém, não há dúvidas que o aparato tecnológico alavancou para a sua consolidação.

YA – Qual a definição de jornalismo de base de dados (ou banco de dados) e a sua relação com os infográficos?

AR – Suzana Barbosa, membro do GJOL e atual professora da UFF, define assim o  conceito de Jornalismo Digital em Base de dados como  aquele que tem como padrão as bases de dados para a estruturação, edição,apresentação do material jornalístico como todo,  além do o enquadrá-lo como na transição da terceira para a quarta geração dentro do jornalismo digital. Ou seja, as bases de dados instauram um novo paradigma, por suas especificidades e potencialidades, o que provoca a criação de produtos jornalísticos digitais dinâmicos.

A infografia mantém estreito vínculo com o jornalismo digital, quando no momento em que o jornalismo praticado na Web avança nas potencialidades, a infografia vai neste bojo, amadurecendo e se sofisticando. No momento atual,  nota-se claramente que a inserção das bases de dados se fazem presentes nas infografias interativas, percorrendo caminho natural dentro da evolução da história do jornalismo digital. É o que tento mapear na minha pesquisa de mestrado (em fase conclusiva): A emergência das bases de dados nos infográficos, delimitar suas características, especificidades, funções e potencialidades, etc.Constitui-se numa nova modalidade de produção de infográfico que tem como principal referência o The New York Times, jornal que mais investe em infografias em base de dados atualmente, fato este que outros jornais como o El mundo, USA Today, entre outros, vem aderindo esta prática.

YA – O tempo dedicado à leitura dos jornais na Web e no impresso é cada vez menor. Alguns pesquisadores acreditam que o uso de infográficos, por exemplo, é uma alternativa para atrair a atenção dos leitores. Você acredita nesta afirmativa?

AR – Se formos olhar bem a história da humanidade,vemos que, de uma forma ou de outra, a imagem esteve associada com as palavras. Não é atoa que o pesquisador espanhol Manuel De Pablos afirma, categoriacamente, que sempre houve infografia na história humanística, como debatido na primeira pergunta, pelo fato do aspecto visual ser um dos chamariz para os leitores. As pessoas têm curiosidade de “ver” como os fatos acontecem, e isso os jornais tem de resolver de alguma forma. Os infográficos cumprem esta função, de reconstituir algum fato de grande impacto, como a gripe suína, por exemplo, explicar como tal coisa funciona,etc, etc, etc.

Acredito que não só atrair o leitor, mas servir como instrumento de análise em profundidade. Este é um dos aspectos que tento compreender na minha pesquisa.

YA – Na edição de agosto (2009), o redator-chefe da Superinteressante anunciou mudanças que valorizaram mais a forma do que conteúdo para a revista manter-se no jogo. Isso prova que o infográfico é um gênero de mesma valia das matérias?

AR – Na verdade, a infografia é antes de tudo, visual, estético. Ela é a apresentação gráfica na informação. Dito isto, para se fazer gênero há que considerar a estrutura narrativa, responder as questões clássicas do jornalismo (o que, quem,quando, onde, por que),  ter uma certa sistemática no cotidiano do jornal,  se for publicado independentemente da matéria, ou seja de forma autônoma, dando conta da informação por si só. A infografia carrega os mesmos principios de uma reportagem, se formos notar bem.

A Super sempre valorizou o discurso visual em suas reportagens, é uma revista que mais investe nesta área, tendo inclusive, ganho várias medalhas na premiação mais importante de infografia, no Malofiej, que acontece anualemente na Espanha. Hoje este debate acadêmico ainda perdura, se a info é um gênero ou não. Para mim, é gênero se tiver em acordo com os preceitos acima descritos, em pé de igualdade a uma reportagem.

No mercado, apesar deste debate esteja crescendo, ela ainda é vista como complementar a uma matéria, um auxílio ao texto escrito. Observe os infográficos interativos do G1. Raramente é publicado de forma autônoma, e sim, como complemento da matéria, que para eles, o texto continua prevalecendo.  Mas em outros jornais on line, como o Estadão, por exemplo, ela é publicada isoladamente, e isso é um ótimo sinal de que a infografia esteja em fase de amadurecimento,mas depende de como a empresa o enxerga como tal e o trata.

YA  – Qual a sua avaliação da infografia no Brasil e, principalmente, nos jornais baianos?

AR – De uma maneira geral, a cultura da infografia no Brasil é ainda mais forte no impresso do que no on line.  Temos excelentes jornais e revistas nesta área que valorizam bastante o jornalismo visual nas reportagens, como a Folha de S. Paulo (uma das primeiras a usar infográficos nas suas páginas), Jornal do Commércio, Estadão, Revista Época, Super, Mundo Estranho, agora a Nova Escola, vários.

Já no on line, acredito que ainda falta maturação por parte de algumas empresas que o enxergam como algo sem credibilidade e sem futuro algum. O que observo em grande parte das infografias on line são estáticas, duras, sem nenhuma interatividade ou dinamismo para o incremento da narrativa visual. Isto é, se configuram como mera transposição do impresso para a web, quando poderia explorar todos os elementos e características da Web…

A instituição do (bom)infográfico enquanto discurso gráfico passa por investimento, e acima de tudo, valorização de que aquela info dá conta da informação. E isso é um processo que precisa está sintonizado com a linha editorial do jornal, com o invesitmento em recursos humanos. Para os jornais mais conservadores, é preciso apostar. E apostar, precisa acreditar.

YA – Adaptar a arquitetura da informação das páginas da Web para os dispositivos móveis é um dos principais desafios para os jornais, atualmente. Como este processo tem se desenvolvido no que tange os infográficos? Já existem experiências pensando em smartphones e celulares?

AR – Bem, ainda não conheço experiências infográficas em dispositivos móveis. Como afirma Xaquín González,editor gráfico do jornal on line The New York Times, são projeções futuras, dada a evolução das redes telemáticas.

A infografia ainda tem uma característica que temos levar em consideração: a ampliude espacial da informação. Há infográficos que permitem uma espécie de “imersão” naquela estrutura informativa, em que a interatividade é o elemento central em jogo. É um dos poucos produtos jornalísticos em que a dimensão espacial é importante. Ela se torna atraente por causa disso, pela diversidade nos modos de visualização que proporciona.

Não sei se infográficos feitos para os dispositivos móveis teria a mesma expressividade, embora o celular hoje é um mini-computador, com caráter híbrido, multifacetado, mutável, onde todas as possibilidades estão sendo testadas constantemente. Se vai ser uma evolução ou revolução, prefiro não fazer futurologias a este respeito, e esperar o processo acontecer.

*Adriana Alves Rodrigues
é jornalista, mestranda em Comunicação e Cultura Contemporânea pela Universidade Federal da Bahia – UFBA e especialista  em Jornalismo Contemporâneo pelo Centro Universitário Jorge Amado- UNIJORGE (2009). No mestrado, inciado no começo de 2008 e sob a orientação do professor Marcos Palacios, investiga a relação entre os infográficos multimídia e as bases de dados, partindo da premissa de que difere do modelo de produção de infografias atualmente, baseado em animações e 3D. Trata-se do atual estágio em que se encontra a infografia para a Web, que além da inserção das Bases de dados, implica em outro processo de análise jornalística e do desgin da informação.

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3 Respostas para “Entrevista: Adriana Rodrigues fala sobre infografia, ciberjornalismo e bases de dados

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