Comentários sobre o fim do diploma para jornalista

Não poderia deixar este momento passar em branco aqui no blog, apesar de ser um post “desatualizado” sobre a decisão mais polêmica (até então) realizado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que julgou inconstitucional a exigência do diploma de jornalismo e registro profissional no Ministério do Trabalho como condição para o exercício da profissão de jornalista, na última quarta-feira (17).

Objetivamente, achei danosa a decisão do STF no que tange os direitos trabalhistas e a regulamentação da profissão. Não que o diploma seja a melhor ferramenta para tal, mas era a única ferramenta que tínhamos. Entretanto, entendo que o fim do diploma, de certa forma, oficializa uma prática já comum nos jornais brasileiros, quando optam por contratar não-formados em jornalismo para o exercício da profissão.

Com o fim do diploma teremos, na prática, mais trabalho com menor remuneração, visto que (lembrando Marx) o exército de reserva do mercado puxa para baixo o salário. Além disso, nós, jornalistas, “comeremos na mão do mercado” e agora só nos resta torcer para que optem por contratar profissionais com formação específica do que uma mão-de-obra que aceitará qualquer remuneração e prestará os mais canalhas serviços na redação. No passado era assim e só com a regulamentação esta característica foi equilibrada (mas ainda não superada…)

Ao dizer isso, levanto também uma crítica aos “argumentos” dos ministros que votaram pelo fim do diploma, alegando, dentre outras barbaridades que o “jornalismo não oferece risco à sociedade” e que o exercício da profissão limita-se a “um conjunto de técnicas” e que o diploma como requisito para o “fazer” jornalismo impedia a liberdade de expressão.

Uma informação noticiada de forma errada causa mais dano do que um médico esquecer um bisturi na barriga de um paciente. O médico atende meia dúzia de pacientes por dia, o jornalista fala para meio milhão (ou mais). Jornalismo não é apenas título, lead, uma “sopa de letrinhas”, envolve uma dimensão social, política, antropológica e cultural. O jornalismo é o campo social mais importante da sociedade contemporânea, pois é através dele que se legitima comportamento, ações, valores e, porque não, o conhecimento, tendo em vista a mediação cada vez mais onipresente dos meios de comunicação. Basta dar uma olhada no fenômeno das mídias sociais e colaborativas para entender que não há nenhuma relação entre liberdade de expressão e diploma. Pelo contrário, os jornais, como nunca, abriram “espaço” para a colaboração dos leitores e passaram a entender que sem colaboração é impossível fazer jornalismo, atualmente.

Ao contrário do apocalipse pregado por alguns dos coleguinhas de profissão, após a decisão do STF, não vejo a morte do jornalismo com o fim do diploma. A mudança diz respeito ao passaporte para o ingresso neste campo social. Se antes era necessário o diploma para sentar a bunda em uma redação ou assessoria de imprensa, agora, o diploma pode ser um diferencial, uma opção do empregador. Na Europa e nos Estados Unidos o diploma não é obrigatório, mas as empresas de comunicação preferem profissionais formados em faculdades de jornalismo para o exercício da profissão. O jornalismo brasileiro copia tanto os “gringos”, quem sabe adote também esta regra por aqui. Espero que essa seja a tendência.

Se existe um aspecto positivo no fim do diploma diz respeito a formação ou melhor, as mudanças que precisam ser realizadas na matriz curricular das faculdades de jornalismo. O diploma agora não será apenas um canudo, mas atestará competência e disposição do aspirante ao cargo laborioso. Faculdades de jornalismo irão à falência, sim. Profissionais ficarão sem emprego, sim. Tem gente que desistirá de ser jornalista, sim (ótimo). Mas creio que deste primeiro momento de terror, nascerá uma nova categoria de profissionais, com um leque de conhecimento mais amplo, faculdades mais comprometidas com a formação e não apenas o lucro. Além disso, o fim do diploma irá abrir as portas para que outros bons profissionais, de formação diferenciada, atuem no jornalismo e, consequentemente, melhore um universo em constante crise, mas de suma relevância para sociedade.

Por fim, quero deixar claro que esse papo de que só existirá jornalismo de qualidade com profissionais formados em universidades/faculdades é uma fraude. O que irá garantir a qualidade do jornalismo é a formação cidadã do profissional e veículos de comunicação voltados para o interesse público, onde a notícia seja o ponta pé inicial para o debate público e não moeda de troca no mercado publicitário ou aquilo que separa os anúncios, como diria o Chatô.

Continua….

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