O Twitter, a chuva em Salvador e o jornalismo colaborativo

“Um mais um é sempre mais do que dois” já cantava Beto Guedes com sua viola pelas ruas de Minas Gerais. Entretanto, apesar do tempo e do ensinamento da letra, os jornais e os jornalistas ainda descartam as redes sociais em sua cobertura diária.

Vocês já leram um exemplo prático das lições que o Twitter pode ensinar aos jornalistas, mas, como eles ainda não aprenderam vale contar a história novamente. Aqui em Salvador, o mês de abril sofreu com a chuva, choveu mais do que o previsto e no início deste mês a situação fora semelhante. Resultado: a cidade dissolveu como um sonrisal.

Bom, para além das observações climática, o que me interessa mesmo é a zona informacional colaborativa que “caiu” no Twitter durante o dia. Digo zona pois os tuiteros de salvador conseguiram mapear os principais problemas de alagamento, engarrafamento, arrastão e outras informações sobre o problema da capital baiana.

O melhor: de forma colaborativa (textos e imagens), dialógica e auto-organizada. A turma atendeu aos pedidos e os tweets marcados com as hastag #chuva e #salvador, o que resultou em uma memória informacional do fato. Não há dúvida de que a cobertura via Twitter foi a melhor da tragédia da cidade do salvador.

E o que os jornais fizeram com tanta informação? Não digo que nada, mas muito aquém do que a produção coletiva em 140 caracteres pode proporcionar. Enquanto, no incêndio da UFBA o Twitter passou despercebido, em relação a chuva, a turma do @itapoanonline (diga-se de passagem possui repórteres que usam o Twitter, uma diferença) utilizou a ferramenta como fonte e incorporou as tuitadas no conteúdo do site, assim como de forma tímida pela turma do Correio.

Mas, os jornais precisam transformar as redes sociais em espaço de atuação do jornal. Um exemplo deste entendimento vem da Assessoria Geral de Comunicação do Governo do Estado da Bahia @agecom. Após os questionamentos de alguns usuários sobre o que o governo faz ou fará para minimizar os impactos da chuva em Salvador, a resposta veio pelo próprio Twitter. Sinal dos tempos?

Para quem gosta de números, a cada links enviado pela @agecom ao twitter a média de click é de 30. Mas, neste contexto comunicacional, cada link relacionado à chuva obteve 60 clicks. Ora, se para os jornais, o que interessa é o número de visitas, não existe lógica para não atuar em um espaço que aumenta o número de visitantes?

A resposta está na tarefa mais difícil para os jornalistas na sociedade pós-massiva: o relacionar. Coleguinhas de profissão, não somos mais protagonistas da notícia, o protagonismo vem do cidadão, da comunidade, das redes, cabe ao nosso “fazer” jornalístico filtrar, contextualizar e dar um tratamento mais elaborado aos fatos. Cabe a cada um de nós analisar  que determina rede social pode oferecer para a nossa atividade, e vale destacar, relacionar não é encontrar personagem no Orkut, é jogar no mesmo time e tocar a bola para o leitor.

Twitter x Rádio

Se o jornais online fizeram uma cobertura offline do fato, não era de se esperar que a Tv fizesse algo diferente. Ao assistir os telejornais da cidade, sabe aquele sentimento de “já vi esse filme antes”?  Entretanto, o rádio, tanto pela mobilidade como pela interação reinou absoluto dentre os mass media.

Porém, por mais que o cidadão tenha “voz” no veículo rádio, ainda existe o mediador (será isso um problema?) para coordenar a participação do sujeito no noticiário, diferente do Twitter que gera um ecossistema auto-organizado e constitui, deste modo, uma esfera de visibilidade pública baseada nos interesses e demandas dos membros.

O ainda sobre este assunto o André Lemos questiona: estariam as mídias massivas destinadas a fazer arqueologia do passado imediato?

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6 Respostas para “O Twitter, a chuva em Salvador e o jornalismo colaborativo

  1. A discussão é pertinente e vem pautando, aos poucos, o jornalismo mundial. O baiano é mais lento, mas tá andando. Cedo ou tarde vamos acompanhar de perto certas mudanças, até porque temos aqui na Bahia uma núcleo acadêmico forte na área e que TEM QUE refletir na prática o que é visto na teoria. E infelizmente isso ainda não acontece.

  2. Li seu post anterior sobre o assunto (o do incêndio) e graça a ele e ao convite de Kátia Borges passei a tuitar também. Pra mim serve como desabfo,como a possibilidade de chegar na janela e gritar: esta porra de cidade vive há quase meio milênio esta rotina anual e ainda não aprendeu a chover. Mas tenho dificuladades no inglês e ainda estou por aprender a adicionar as pessoas. Imagino que esta dificuldade seja de muitos nesta cidade de poucas letras e menos ainda de letras estrangeiras. Mas penso que como aconteceu com o orkut e o wordpress, quando o tuiter se aportuguesar uma massa considerável vai aderir.
    Grande abraço.
    P.S Quanto aos acadêmicos, especilamente os da Facom, vejo muito distante a aproximação dos caras com a nossa realidade. Eles vivem numa bolha bem remunerada, numa zona de conforto de onde assistem o mundo mais do que agem.
    P.S 2 senti falta do crédito na foto.

  3. Nossa, muito bom, mesmo! Tragédias anunciadas parecem ter sido esquecidas! Salvador não difere de Sampa, que Caetano descreveu muito bem!
    Quanto à cobertura Twitter, apreciaria contatar quem fez, como fez, impressões etc, pois tenho bolado tais ações onde atuo, mas estou “quase” só na empreitada!
    Parabéns aos baianos e interessante saber que a Facom é uma bolha, pois sigo ao Gjol, Lemos, entre outros, e aprendo muito com todos! Talvez seja o fato da academia apropriar-se dos fenômenos enquanto objetos, ampliando a distância em detrimento do sentimento em relação às “coisas” cotidianas. Aprecio, no entanto tais provocações, até para gerar um caldo baiano de discussão!
    Valeu
    /////
    @_@♫
    ~~~

  4. Bem positivos estes flagras via twitter assim como as possibilidades de informação geradas por outras mídias sociais. Acho que tudo isso nos coloca diante de uma revisão em diversos sentidos: não só a questão do academicismo, colocada nos comments anteriores, que precisa incorporar e pensar urgentemente estes aspectos como o próprio mercado profissional, que muitas vezes não está preparado para este tipo de protagonismo ensejado pelo outro. De que modo os profissionais de comunicação têm se apropriado disso e com que saldo de qualidade, é uma discussão que urge.

    Bacana o blog, Yuri!

  5. Pingback: Climate change and cyber-activism in Brazil « The World is Talking…

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