Entrevista exclusiva e imaginária com Philip Meyer

Diria que “Os jornais podem desaparecer? – como salvar o jornalismo na era da informação” é um livro razoável. O Philip Meyer analisa as causas da “crise” dos jornais e jornalistas de forma interessante, nos Estados Unidos. Quando comparamos ao Brasil, acho distante tal realidade.

Quando o livro foi lançado lembro que a turma pegou uma previsão do Meyer e ventilou “os jornais vão acabar em 2043 e tal…”. Mas além de ser apenas uma previsão, o autor calculou número de habitantes x venda de jornal para fazer a previsão. Obviamente, que por essa lógica, os jornais não terão dias gloriosos, mas enfim…Abaixo um resumo das principais (julgo assim) defendidas pelo Meyer em seu livro.

Em seu livro “Os jornais podem desaparecer? – como salvar o jornalismo na era da informação – você sinaliza que os jornais, seja como negócio ou atividade social, passam por uma crise. Quais os elementos que contribuíram para a configuração deste cenário?

Um dos fatores foi a gradual dispersão da propriedade na América corporativa. Esta passagem dos jornais da família e dos amigos dos fundadores para investidores institucionais corroeu o profissionalismo. Buscou-se o lucro fácil e esqueceu-se do investimento a longo prazo. A lógica era: “Pegue o dinheiro e vá embora”.  Vale destacar que “o setor de mídia de massa se contraía quando comparado ao resto da economia, e que a mídia especializada se expandia para ocupar os espaços vazios. (p.12)”. Além disso, os laços entre comunidade e jornais foram enfraquecidos. Penso que “os laços de um jornal com a sua comunidade são um fator da sua credibilidade e, por implicação, sua influência” (p. 40)

A gradual perda de credibilidade também contribuiu para esta crise?

“O tamanho do mercado é causa da credibilidade (comunidades menores tendem a confiar mais), e credibilidade causa sustentabilidade” (p. 38). “Jornais confiáveis atraem mais leitores, e o efeito é mais forte onde a competição obriga os jornais a lutar por seus leitores. Em outras palavras, a credibilidade não apenas ajuda, ela ajuda principalmente onde é mais necessária” (p. 92).

Mas, a “culpa” é apenas dos empresários da comunicação ou o mercado tem um dedo neste processo?

Durante a maior parte do século XX os jornais eram verdadeiros monopólios da visibilidade pública. Os jornais eram como pedágio. Para que os varejistas pudessem “trafegar” neste universo era necessário pagar. “Ser dono de um jornal era como ter que recolher um imposto sobre a venda. Mas as novas tecnologias estão se desviando desse gargalo. Os varejistas atuais encontram outros caminhos para suas mensagens”. (p. 43)

E quais os critérios adotados pelo mercado para anunciar em um jornal?

O parâmetro tradicional para avaliar a publicidade são os pontos de audiência bruta ou “quantidade de pessoas”. (p. 57). Outra questão é a freqüência. Enquanto o número de leitores de jornais diários cai desde a década de 1960, o número dos que lêem jornais pelo menos uma vez por semana se mantém constante (pg58)

No livro você prevê que em 2043 não existirá mais leitores diários de jornais…Isso se deve a falta de confiança nos jornais?

Apesar de a circulação total dos jornais, em relação à proporção de domicílios, estar claramente em declínio desde 1920, na virada do século a maioria das pessoas ainda lia pelo menos um jornal quase todos os dias.  (p.135). A queda no número de leitores foi levada a sério pela primeira vez no final dos anos 1960, quando novas fontes de informação começaram a disputar, com sucesso, o tempo do tradicional leitor de jornais (p.48).

“O fato de que tanto a confiança quanto o número de leitores vêm diminuindo a uma taxa semelhante no mesmo período não significa que uma coisa seja a causa da outra” (p.27)

E o que os jornais podem fazer para aumentar a credibilidade e serem mais confiáveis?

“As comunidades cujos jornais apresentam mais erros do que a média têm cidadãos que confiam menos na imprensa”. (p.106). “A exatidão é um tijolo na construção da credibilidade do jornal a longo prazo”. (p. 109). “Os jornalistas precisam ter um conhecimento funcional dos assuntos que cobrem e precisam de programas de aprimoramento profissional constantes”. (pg. 113)

Em relação à notícia, “temos de processá-la de forma a fazer com que os leitores estejam dispostos a recebê-la. Se isso era verdade nos anos 1950, é ainda mais vital no ambiente repleto de informações do novo século”. (pg.242)

Ainda nesta seara dos erros no jornalismo, você comenta que eles estão relacionados, sobretudo, à falta de especialização da redação…

“O principal motivo citado pelas fontes, quando questionadas sobre por que se cometeu um erro, foi simplesmente que o repórter não entendia do assunto sobre o qual estava escrevendo. Entre as que detectaram erros, mais de uma em cada quatro fontes (29%) deu essa resposta”. (p. 110).
Não podemos deixar de lado a sobrecarga dos jornalistas. “Para cada repórter a mais cujo texto deva ser fechado por um único redator, a taxa de erro matemático sobe dois pontos percentuais”. (p. 112)

No livro você discute um aspecto importante: a legibilidade influencia o preço da publicidade. Gostaria que explicasse melhor esta tese.

“Se os jornais usam a dificuldade de leitura para afastar os mais pobres e menos educados, e se essa estratégia funciona, então os jornais mais difíceis de ler segundo a escolaridade do público devem cobrar mais caro pela publicidade (por mil exemplares em circulação). Seus anúncios deveriam valer mais porque o jornal atinge a nata do poder de compra do condado”. (p. 131)

Por outro lado, “quanto mais um jornal estica sua legibilidade para alcançar um público maior, mais cobra em publicidade por mil exemplares em circulação. Essa é uma refutação direta à teoria da segregação”. (p. 132)

E quais as alternativas para salvar o jornalismo?

“A melhor maneira de garantir o futuro dos jornais seria conservar sua influência e pagar os custos das experiências radicais necessárias para aprender quais novas formas de mídia são viáveis” (p. 26). “Aqueles que preservarão o melhor das tradições do jornalismo devem começar pela premissa de que isso é um negocio. A velha convenção de que os editores devem ser protegidos de qualquer informação sobre o lado empresarial está completamente ultrapassada”. (p. 217)

E como a internet pode influenciar esse processo de “salvação”?

“O modo mais óbvio de lidar com a tecnologia substituta é entrar no negócio substituto. Isso é mais difícil do que parece, se as capacidades e oportunidades da nova tecnologia ainda estão sendo descobertas. A internet pode fazer muitas coisas maravilhosas. Descobrir como essas maravilhas serão lucrativas exige uma longa série de experiências do tipo tentativa e erro, realizadas por organizações com alta tolerância ao fracasso”. (p. 229).
Penso de que o futuro do jornalismo na internet deve ser baseado na comunidade. “O modelo de influência precisa de uma esfera pública definida por laços econômicos e sociais”. (p.238)

Evidentemente existem ameaças e desafios para o jornalismo na era da informação…

“Se o velho jornalismo não conseguir adaptar-se, pessoas que sabem usar a nova tecnologia melhor do que os tradicionalistas – ou apenas estejam mais abertas a experimentar – começarão a nos substituir. No final, o jornalismo como um conceito distinto, formado por um conjunto próprio de habilidades e valores, corre o risco de perder sua identidade”. (p. 242)

E em relação ao futuro dos jornalistas? O jornalista irá desaparecer?

“As transformações, seja tecnológica ou mercadológica, levará os jornalistas a deixarem de ter um ofício e se tornaram profissionais liberais”. (p. 244). “Muitos editores de jornal ainda afirmam preferir contratar pessoas formadas em ciências humanas do que em jornalismo. A prática mostra o contrário. Uma pesquisa de 2000 revelou que 78% dos novos contratados pelos jornais são formados em jornalismo. As companhias de mídia não têm paciência para treinar funcionários totalmente crus, e aprenderam com a experiência que as faculdades de jornalismos são uma fonte confiável de mão-de-obra barata. A convergência das mídias vai aumentar sua dependência das escolas de jornalismo devido à grande demanda por habilidades técnicas específicas”. (pg. 244).

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2 Respostas para “Entrevista exclusiva e imaginária com Philip Meyer

  1. Eu diria que a publicidade em meio físico começa a migrar para a publicidade online, e também para o conteúdo pago. Acredito sim que o costume de se comprar um jornal na banca está diminuindo, até por conta da agitação do cotidiano atual da humanidade. Bjos! Camila.

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