Dividir para reinar

Nas primeiras leituras sobre cibercultura ficava encantado com a quebra do espaço x tempo proporcionado pela internet. Pensei bastante sobre as alterações que o efeito “cosmopolita” iria causar na cidadania, na sociabilidade, política…

Lembro que, ainda na graduação apresentei um seminário sobre a cidadania no ciberespaço. Algumas questões primárias foram debatidas como a internet afasta ou aproxima as pessoas, a crise dos elementos fundadores da cidadania, tais como o território, inteligência coletiva. Pensando nos argumentos sustentados na época, diria que foram bastantes utópicos, ainda mais após as aulas com o professor André Lemos na pós-graduação.

Pude perceber que paralelo ao efeito “cosmopolita” a potencialização da hiperlocalidade é algo latente na web. Não há “anulação” do território, uma vez conectado a teia mundial, mas sim, uma relação afetiva com o espaço urbano, seja na ressignificação ou no fortalecimento da memória coletiva.

Prova disso é a explosão de jornais hiper-locais, comunitários e locais. Tive uma experiência particular no desenvolvimento jornalístico onde o foco editorial era local, especificamente um veículo de comunicação (impresso com versão digital) destinado ao debate e cobertura sobre o município de Lauro de Freitas. É curioso observar as lacunas deixadas pelos mass media, no que tange a cobertura das cidades periféricas, bem como a não-identificação ou não-reconhecimento da população sobre temas locais pautados no mainstream midiático.

Estabelecer o diálogo com uma comunidade é mais eficiente quando você está afeto ao cotidiano local. Para o jornalista, respirar o mesmo “ar” auxilia na produção de conteúdo, com uma linguagem próxima ao seu público, diferentemente do que ficar imaginando qual o perfil do meu leitor no outro pólo. Por falar em pólo, é impressionante como os leitores respondem a uma provocação pautada pelo jornal local e, o melhor, cria-se um elo entre público e mídia, essencial para a produção colaborativa.

E não é apenas o editorial que sofre alterações quando o foco é o bairro/comunidade. Financeiramente, é mais fácil desenvolver estratégias de publicidade quando o seu conteúdo é local. Além do preço dos anúncios serem inferiores a um jornal de grande circulação, o anunciante tem a certeza de atingir o seu público potencial. Uma divulgação objetiva, acertando o centro do alvo. Pena é que a publicidade oficial não chega, bem como das grandes empresas. As agências de comunicação ainda não atentaram que as mídias locais dialogam melhor com o público do que a grande imprensa.

A saída é desbravar o comércio local e o grande desafio neste caso é a falta de uma “cultura de anunciantes”, porém simplesmente solucionada quando o concorrente está no jornal e o outro não. Era uma estratégia que utilizávamos para “atrair” os anunciantes e dava certo.

Por fim, as experiências hiper-locais/comunitárias acumulam poder simbólico na construção da agenda pública, seja através da exposição de temas específicos de uma comunidade ou na criação de vínculos afetivos de temas globais a uma determinada localidade/população.

Fico a pensar: não seria uma boa estratégia para os mass media dividir para reinar?

A fórmula já deu certo uma vez (pelo menos na esfera política) e a receita (ou uma das) novamente está em teste. É o que informa Carlos Castilho em sua coluna no Observatório da Imprensa.

“Contrariando a sucessão ininterrupta de más noticias sobre a crise na grande imprensa, começam a pipocar informações otimistas sobre a performance da chamada micro imprensa, formada por jornais locais, comunitários e hiper-locais (bairro e rua)”.

De acordo com Castilho, o Trinity Mirror, o quarto maior grupo de imprensa do Reino Unido, acaba de lançar 16 novos jornais hiper locais gratuitos usando informações recolhidas por 22 sites de jornalismo online, também focado em pequenas comunidades, bairros e até ruas. E a BBC criou neste ano, nada menos que 60 páginas web de jornalismo comunitário e local para estimular a participação de leitores na produção de informações que depois serão publicadas em emissoras locais e regionais da maior rede pública de televisão do mundo.

Apesar de poucos dados sobre projetos jornalísticos locais no Brasil, Castilho argumenta que os recentes abalos, que sacudiram os mass media, não atingiram a “micro imprensa”, justamente por esta desenvolver outras estratégias editoriais e publicitárias na elaboração dos produtos.

Acho que este post responde o questionamento (realizado após lhe apresentar o meu novo projeto) de uma amiga (offline): dá para ganhar dinheiro fazendo jornal hiper-local?

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