Comentários Seminário de Internatividade (FTC) com Alex Primo e Marcos Palacios

Participei ontem do Seminário de Interatividade realizado na FTC – Salvador com a presença dos professores Alex Primo (UFRGS) e Marcos Palacios (FACOM-UFBA) acerca da cibercultura, interação, blogs, jornalismo e afins.

 

 

A exposição do Alex Primo fora dividida em duas partes:

 

 

a) rápida abordagem do seu recém-lançado livro, Interação Mediada por Computador, onde analisa os impactos/interferência/fenômeno da relação mediada por computadores. Primo centra sua pesquisa na interação/mediação através dos computadores, fugindo da velha estrutura emissor versus receptor. Em síntese, a obra busca responder: “se a interconexão na Internet permite ultrapassar diversas barreiras até então impostas pelos meios massivos, como estudar a interação mediada por computador com auxílio apenas das tradicionais senhas explicativas?”

 

b) traçou um panorama histórico das tipologias de três fases do desenvolvimento tecnológico, propostas por André Lemos.

O Mapa abaixo fora apresentado durante o Seminário e guiou o discurso de Primo.

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Apresento apenas algumas anotações sobre cada fase.

1- Indiferença – O sujeito é visto apenas como um instrumento de Deus e a tradição determina o comportamento social. Não existe a idéia de direitos autorais (porque eramos os escribas de Deus que, por sua vez assopra o conhecimento em nossos ouvidos, aquela “estória” de tudo vem do Senhor). O autor-oral registra apenas a tradição e verbaliza o sopro divino. Nesse estágio a mídia é marcada pela oralidade e a metáfora é o céu.

2- Conforto (Modernidade) – Há um controle e transformação da natureza, dessacralização e racionalismo. Segundo Primo, “ o que a ciência não consegue explicar ou provar não existe. O conhecimento resulta da ciência, através dela atingimos o progresso. Dominar a natureza e controlar o mundo é a garantia do progresso”.

Nessa etapa nasce a noção de direitos autorais como apropriação penal (FOUCAULT). Quem é o responsável por esta obra?

Primo aponta também que o copyright foi essencial para a indústria cultural e em contrapartida foi perversa com o artista. Problematizando a questão dos direitos autorais na contemporaneidade e as as novas interfaces oriundas da internet, como o P2P, Primo destacou que o mercado possui um alto de grau de adaptabilidade, por isso sempre ganha, inclusive com as trocas de arquivos pela internet. Um exemplo claro desse argumento, foi o filme Tropa de Elite, que após cair “na rede” tornou-se sensação nacional.

É nesse contexto que nasce os mass media, a economia é guiada pela raridade (objeto/demanda) e a internet (1.0 na visão de Primo) permite uma interação restritiva: o usuários apenas colhia conteúdo, liam jornais, sites institucionais… A metáfora é o relógio (automatização da vida) ou a escada “um passo após o outro”

3- Ubiqüidade – que tem como grande destaque a ultrapassagem dos limites temporais e geográficos, o que mudará a concepção e relação com o mundo. A metáfora aqui é a rede. O conhecimento valoriza a sabedoria das multidões e a produção coletiva de conteúdos. Esse movimento rompe com a concepção passiva das massas, para um público ativo, co-autor das mensagens e significados culturais.

A autoria propõe as assinaturas coletivas, retorno ao autor anônimo, surgem as licenças livres (Creative Commons) e o copyleft, em contraponto aos direitos autorais e o status da propriedade intelectual.

Segundo Primo, “não importa quem escreve e o seu status, uma vez que o próprio coletivo seria responsável por “editar” os conteúdos. Isso se reflete na economia. A força bruta é substituída pelo trabalho imaterial, no lugar do individualismo a cooperação. Já os medias são vistos como meios convergentes e ubíquos e a web 2.0 (resultante desse estágio) proporciona a interação, caráter dialógico, multimidialidade…

Marcos Palacios

 

Comentou a relação dos blogs e o alongamento do campo jornalístico. A sua fala objetivou responder a seguinte questão: De que maneira o uso dos blogs alteraram o campo jornalístico?

 

A noção de campo fora tomada de empréstimo do sociólogo francês, Pierre Bourdieu que compreende campo como o funcionamento das sociedades complexas, ou seja, suas regras, estruturas hierárquicas, funções e posições. O campo também é o palco de luta entre os atores do microcosmo visando se apropriar de um capital (seja ele simbólico, financeiro) do campo. Palacios destacou ainda que: cada campo corresponde à um habitus e estabelece os valores e formas de acesso (o diploma para ingressar na atividade jornalística, por exemplo) ao campo.

 

O que achei interessante na apresentação do Palacios foi a compreensão de que a internet proporcionou poucas rupturas, mas grandes continuações, no jornalismo, por exemplo. A grande ruptura, defende ele, foi a “quebra dos limites espaciais e temporais, que possibilitou ao jornalismo novas interfaces produtivas e conceituais e a liberação do pólo emissor, que reconfigurou os papeis/status do emissor e receptor, tornando-os interagentes nos processos comunicacionais”.

 

Noção de blog : em primeira instância, suportes e ferramentas comunicacionais.

 

Para entender o impacto do blog no campo jornalístico, Palacios propõe os seguintes argumentos:

 

1- Subversão do lugar de emissão

2- Questionamento dos habitus (quem é jornalista, quem tem direito a publicar uma informação?)

3- Critérios de noticiabilidade (o que deve ser noticiado?)

4- Vigilância da mídia tradicionais (ombudsman populares/especializados)

5- Ampliação do debate (esfera pública) via comentários dos usuários

6- Blogs como potencialização do Public Journalism.

Para ele cinco aspectos classificatório do “alargamento” do campo jornalístico:

 

 

a) jornalismo difuso

  • a voz dos que estão na cena do crime
  • testemunhas presenciais dos fatos
  • multivocalidade e testemunho direto

– problemas deste tipo de jornalismo: incapacidade de dar forma jornalística as narrativas, contextualiza-las o que resulta um “chuviscos informativos” ou seja os relatos não conseguem adquirir significado noticioso.

b) monitoramento e crítica da mídia tradicional

 

  • sites como Observatório da Imprensa, blogs especializados em crítica da mídia….

c) jornalismo de recuperação da informação residual

 

  • dar visibilidade à aspectos pouco considerados em notícias, eventos, fatos, que não conseguem oportuna relevância nas mídias tradicionais, passam por uma releitura/agregação de novas informações.
  • Complementa informações dos próprios veículos tradicionais
  • possui diferentes critérios de noticiabilidade.

 

d) quebra do monopólio de acesso a fontes

 

  • blogs passam a ter acesso direito a fontes primárias de informação (personalidades, sites institucionais, empresariais, base de dados…uma exemplo é o fácil acesso a dados, release das empresas, pesquisas públicas/governamentais que possibilita aos blogueiros informação equânimes dos jornalistas

e) jornalismo de aprofundamento em colaboração

 

  • capacidade conversacional dos blogs
  • aprofundamento horizontal
  • alargamento temático
  • análise e indagações sobre a realidade complexa, através da linkagem hipertextual com outras vozes;
  • recupera informação da mídia tradicional, pública na web e gera uma realimentação da pauta jornalística da mediasfera (empresas jornalísticas)

 

 

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2 Respostas para “Comentários Seminário de Internatividade (FTC) com Alex Primo e Marcos Palacios

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