Política midiática: visibilidade e legitimação *

 

Compartilho o artigo sobe “Política midiática”, trabalho final da disciplina “Comunicação e Política”, ministrada pelo prof. Dr. Wilson Gomes, integrante do curso de pós-graduação em Jornalismo ContemporâneoFaculdades Jorge Amado. Outubro de 2007.

Críticas são bem-vindas.

Resumo

A política midiática é fruto da indústria da informação e das sociedades de massa. Para o êxito em sua atividade, a esfera de decisão política passou por um processo de adaptação à “gramática” dos mass media, além de sofrer influência das técnicas e lógicas do marketing no que refere-se à produção de imagem e/ou personagens. A política midiática é uma política de imagem, calcada no espetáculo. Não foram os veículos de difusão de informação massiva que destruíram a tradição do se fazer política, mas deslocou-a para uma nova realidade. Tanto os partidos políticos como a política de bastidores mantêm a sua importância dentro da esfera de decisões políticas, entretanto com um caráter mais privado e restrito para aqueles que não integram esta esfera. Gerenciar a visibilidade de idéias e ações é a principal preocupação da esfera política, atualmente.

 

O objetivo central dos agentes da esfera de decisão política é conquistar corações e mentes da esfera civil, visto que, em um sistema democrático o poder em “deputar algo” ou “alguém à” pertence aos indivíduos. Entretanto, o poder almejado pelos postulantes aos cargos públicos diz respeito ao “poder simbólico”, conceito desenvolvido por Thompson (1998) em seu livro A mídia e a modernidade, uma teoria social da mídia”.

Thompson (1998) enumera quatro tipos de poder: a) o poder econômico que provém da atividade humana produtiva, isto é, atividade relacionada com a provisão dos meios de subsistência através da extração da matéria-prima e de sua transformação em bens que podem ser consumidos ou trocados no mercado; b) o poder político, derivante da atividade de coordenação dos indivíduos e da regulamentação dos padrões de sua interação; c) o poder coercitivo implica o uso, ou ameaça, da força física para subjugar ou conquistar um oponente. A forma mais importante de poder coercitivo é o poder militar. Tradicionalmente o poder militar tem sido usado tanto para a defesa e a conquista externa, quanto para pacificação e o controle internos; d) poder cultural ou simbólico, que nasce na atividade de produção, transmissão e recepção do significado das formas simbólicas.

“Usarei o termo ‘poder simbólico’ para me referir a esta capacidade de intervir no curso dos acontecimentos, de influenciar as ações dos outros e produzir eventos por meio de produção e transmissão de formas simbólicas” (THOMPSON, 1998, p.24).

Destas categorias mencionadas acima, o poder simbólico apresenta-se como a mais adequada para descrever o objetivo da política midiática, isso porque os outros três existem independente da ajuda ou atuação dos meios de difusão de informação para massa. Já o poder simbólico depende de complexos sistemas de construção de linguagens e ambientes para que a política possa realizar-se.

“Os símbolos se afirmam como os instrumentos por excelência de integração social: enquanto instrumentos de conhecimento e de comunicação, eles tornam possível o consensus acerca do sentido do mundo e da ordem social” (BOURDIEU, 1989, p. 10, cit. apud: CORREIA, 2004, p. 235).

Os símbolos assumem uma importância definitiva em uma sociedade em que “a realidade surge no espetáculo, e o espetáculo é real” (DEBORD, 1997, p. 15). Para Rubim, a sociedade do espetáculo pode ser interpretada como conformação avançada do capitalismo, como a etapa contemporânea da sociedade capitalista, entretanto “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens (DEBORD, 1997, p.14). Já para Gomes, espetáculo é entendido como o que se dá a ver, que coloca o seu apreciador na condição de espectador.

“A política-espetáculo é a política que emprega sua presença na esfera da visibilidade pública como estratégia para a obtenção de apoio ou consentimento dos cidadãos. A política-espetáculo é a política que se exibe, mostra-se, faz-se presença, impõe-se à percepção do cidadão” (GOMES, 2004, p. 403).

Dessa forma, a disputa política passa pela imposição da imagem pública dos atores políticos nos media. “Do ponto de vista da esfera política, a esfera de visibilidade pública é a forma com que um agente político ou uma matéria da pauta política, por exemplo, podem assegurar o reconhecimento público da sua existência. (…) não está em cena significa não existir; parecer mau é ser mau para o apreciador do teatro político cotidiano”.(GOMES, 2004, p. 115).

A consolidação da imagem pública é resultante da visibilidade, opacidade e ocultamento que os atores tem nos espelhos midiáticos. Porém, “a política mostra partes convenientes, emite sinais para espectadores, sociedade e mídias, esperando produzir apoio, votos e opinião” (WEBER, 2004, p. 261).

Weber discorre ainda sobre os processos formadores de uma imagem:

 

As informações e sinais são estrategicamente construídos como as ‘ações de instituições e sujeitos públicos’ (informação, propaganda, eventos, atitudes) que, sendo públicas, são ‘informações de interesse público’, as quais dependem da ‘participação da mídia’ (relações econômicas, políticas, privadas etc.) para repercutir. A ‘repercussão pública’ é desencadeada pelas mídias, adversários, grupos sociais, indivíduos, através da veiculação de suas opiniões e imagens sobre a ação do sujeito político. No processo de recepção à repercussão da imagem, residem as dúvidas e certezas sobre a cena política, seus protagonistas e seus difusores” (WEBER, 2004, p.262).

 

O elemento essencial para compreender a importância da criação de uma imagem para os atores é a presença do marketing na política, seja elaborando os seus conteúdos ou reorientando suas práticas, principalmente, durante as eleições.

“A atividade da propaganda consiste, então, na exposição pública das posições, dos sujeitos que as sustentam e dos argumentos que se pretende defender contra qualquer posição contrária ou distinta, com o fim de convencer um determinado conjunto de pessoas à adesão”. (GOMES, 2004, p. 201).

A propaganda eleitoral no Brasil, data da era do rádio e chegou à televisão de forma sistemática e gratuita em 1962. Durante o regime militar, ela assim permaneceu, porém censurada. A partir de 1982, com a redemocratização do País, a legislação permitiu o uso da propaganda na televisão e, até hoje, ela permanece basicamente a mesma, sem maiores alterações, exceto na campanha de 1994, quando foram produzidas imagens fora de estúdios e empregadas outras técnicas de produção e montagem das imagens. Um dos frutos da relação mídia e política foi o Horário Eleitoral Gratuito (1993) para garantir a eqüidade de espaço e tempo para os candidatos.

“A chamada era Collor foi nomeada pela americanização da comunicação política brasileira – ou da adaptação da política às novas condições civis, comerciais e leigas da vida pública, pós-governos militares – através de uma cena pública formada predominantemente pela televisão, pela imprensa e pelo rádio” (GOMES, 2004, p. 292).

O desempenho performático do candidato acontece baseado no sistema de produção e monitoramento da imagem que Weber (2004) descreve da seguinte forma:

 

  1. identidade da instituição e do sujeito desejam uma imagem; definição de b) objetivos + públicos; participação de especialistas e tecnologia para a c) produção e emissão de sinais visíveis e invisíveis; meios e estratégias de d) circulação pública de informações e ações; processos de apropriação das informações e ações, nos modos de e) midiatizações; e f) Mediações, os quais deverão provocar, individual e coletivamente, g) atração + interesse e repercussão da imagem desejada que, por sua vez, será submetido a um processo de h) aferição, cujos resultados alterarão a concepção da imagem veiculada (desejada) na origem, ou seja, “o discurso político obedecerá a configuração das estratégias midiáticas para disputar e capturar o espectador” (WEBER, 2004, p. 275).

 

A influência dos programas eleitorais na formação das intenções de voto ocorre porque a pesquisa de opinião passou de instrumentos de marketing a tema agendado pela mídia para a formação e consolidação da opinião pública. “Geralmente em sintonia com a linha eleitoral da empresa de comunicação, a pesquisa eleitoral é um dos mais importantes momentos do processo comunicacional conhecido como campanha eleitoral” (NUNES, 2004, p. 348).

A opinião pública se constrói, assim, através da cobertura que os media exerce sobre a pesquisa eleitoral. Um aspecto importante (na verdade trágico) é que o leitor (agente ativo no debate público no modelo da imprensa de opinião) torna-se apenas consumidor de notícias. Sabidamente, a imprensa capta a atenção do público, aumenta o número de consumidores e vende-os à publicidade. A notícia é o produto.

“A sociedade de massa contemporâneas praticamente anulam a possibilidade de que a cidadania esteja aparelhada para compreender a esfera pública deliberativa e para, de algum modo, intervir e influenciar nas deliberações que nela se processam. Anulam o controle sobre a esfera pública pela esfera civil justamente impedindo o seu elemento mais essencial: a visibilidade das argumentações e a acessibilidade a todos os concernidos para que se tornem, a qualquer momento, participantes do jogo político”. (GOMES, 2004, p. 203).

“Esta, por sua vez, passa a ser agendada como uma notícia a mais, dentro do processo de cobertura da campanha eleitoral, com a cobertura e análise dos desdobramentos dos seus resultados junto ao público e aos especialistas, comentaristas, que costumam emitir um parecer particularizado sobre os dados das pesquisas” (NUNES, 2004, p. 360).

Antes é preciso entender que a “disputa eleitoral hoje tem, na mídia, seu palco privilegiado, pelo menos nos pleitos majoritários, em sociedades ambientadas pela mídia” (RUBIM, 2004, p. 207), ou seja o contato do público com a cena política ocorre com a mediação dos mass media, que dá um recorte nos principais (eleito por esta) como temas relevantes, com isso os veículos abordam uma determinada cena política e, é justamente, nesse pequeno espaço onde as imagens e discurso são criados. As ações que ocorrem nesse espaço resumem-se a duas: os candidatos proferindo ações para agradar a opinião pública e os candidatos criando cenários para a cobertura da cena política.

“Quando a esfera civil, que determina quem participa e quem está excluído da esfera política, pode formar durante todo o tempo dos mandatos a sua opinião sobre os partidos, sobre o governo e sobre os sujeitos políticos, a sua decisão ganha a mesma exatidão dos mandatos. Os mandatários, então, passam a cortejar a esfera civil e a buscar reconhecer os seus humores e as suas tendências e a satisfazer os seus desejos. Passam a se assessorar de indivíduos com competência no controle dos fluxos comunicativos, para descobrir o que se pensa e sente o público e para produzir discursos e fatos conforme a opinião que se quer que o público tenha. Nesse sentido, a campanha agora se confunde com o mandato, solicitando da esfera política um dispêndio subsidiário e constante de energia. Os mandatários não apenas governam ou legislam, mas o fazem como se estivessem o tempo todo em campanha. A campanha agora é permanente, a eleição é interminável.” (GOMES, 2004, p. 114).

Segundo Gomes (2004) o mundo político (o que o caracteriza) é a construção de imagens dos indivíduos que participam do jogo político de grosso modo, guia as ações políticas, estabelece paradigmas ou orientar a agenda social. Muitas vezes não se discute a questão essencial, seja seu problema técnico-administrativo.

“A diferença entre a exposição pública da discussão pública e da propaganda está no caráter dialógico da primeira e didático da segunda”. (GOMES, 2004, p. 201).

Nas palavras de Carvalho, os media multiplicam os lugares de fala sobre a política e neste processo os políticos profissionais atuam cada vez mais menos como sujeitos falantes e cada vez mais como sujeitos falados.

“Em suma, “vender” um produto comercial (para usar um termo do jargão da publicidade e das relações públicas), ou cuidar da sua “imagem” de forma a torná-lo aceito e desejável pelos consumidores, não pode, nessa lógica, ser muito diferente de “vender” um candidato ou uma posição política, na medida em que a lógica que prevalece em um caso como no outro é a da indústria da comunicação”. (GOMES, 2004, p.207).

 

 

* Trabalho final da disciplina “Comunicação e Política”, integrante do curso de pós-graduação em Jornalismo Contemporâneo – Faculdades Jorge Amado. Outubro de 2007.

 

** Jornalista, blogueiro e pós-graduando em Jornalismo Contemporâneo.

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4 Respostas para “Política midiática: visibilidade e legitimação *

  1. voce tem algum comentario sobe ,o texto de wilson gomes – internet e participação politica em sociedades democraticas revista famecos nº 27

  2. De acordo com seu trabalho entendí que politica tem como ponto forte à midia para seu proprio beneficio.
    alienando toda população da qual necessita mais que qualquer outro.

    estou fazendo um trabalho parecido, e ate o encontro deste não tinha nenhuma ideia de como inicialo.

    agradeço pela postagem do mesmo ;D

  3. Gostaria de saber se vc tem algum material que fale a respeito dos domínios: políticos, comunicação e dominios correlatos que são grandes empresa.

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