A verdade (?) sobre o greatfirewallofchina.org ou uma notícia é beta?

 Atualização do post em 16h36 – 10 de outubro de 2007

>>Não deixe de ler os comentários deste texto, o debate continua lá.

Em um dos post passado comentei a atitude do governo chinês no que tange a censura da web, que dizia o seguinte:

Não é preciso alongar muito nas denúncias contra a repressão chinesas, principalmente no que tange a internet. A “novidade” foi o bloqueio pelo Governo Chinês aos feeds e agregadores de RSS. Através destas ferramentas era possível burlar a censura e ter acesso ao conteúdo proibido. Mas, cortaram o sinal.

Chama atenção o bloqueio das redes colaborativas, blogs e software sociais, como o MySpace.

E, por fim, indicava o site http://www.greatfirewallofchina.org/ como ferramenta para testar as url’s bloqueadas pelo governo chinês.

Portanto, Manolo (não linko-o porque a única informação pessoal deixada no comentário foi o e-mail, logo de uso pessoal) questionou a veracidade da informação e da postura jornalística, deste que vos escreve. O comentário segue abaixo, na íntegra:

Recomendaria, como boa prática jornalística, averiguar fatos antes de divulgá-los. O bloqueio chinês é um fato político deplorável, mas o portal http://www.greatfirewallofchina.org não passa de ferramenta ideológica.

Como sei disso? Simples. Testei o portal oficial de notícias e informações da China (http://www.china.org.cn/) e o portal do governo chinês (http://english.gov.cn/). Resultado? “Your URL is blocked!”

Nâo creio que o governo chinês bloqueasse o acesso a seu próprio portal e ao portal oficial de informação e notícias do país. Conclusões? Ou o portal http://www.greatfirewallofchina.org passa por sérios problemas, ou então quem o organizou mente, e indica todo e qualquer portal ou página como “Your URL is blocked!” como ferramenta ideológica. Sou mais tentando a acreditar na segunda opção.

Será apenas ferramenta ideológica? Erro no sistema?

Como manda a boa prática jornalística, recomendada por nosso advogado lá em cima, consultei um especialista na questão:

Eu mesmo quando estive em Shanghai no ano passado, tive problemas para acessar alguns sites de dentro do hotel. Várias vezes aparecia uma página dizendo que o conteúdo que eu estava procurando era impróprio. Eu perguntava a mim mesmo … Impróprio para quem? Óbvio que a censura era imposta pelo Governo quem detém toda a infra-estrutura da Internet em suas mãos.

Segundo um brilhante estudo feito em 2002 pelo meu ex-professor da Harvard Law School, Jonathan Zittrain, conseguiu identificar até então 19.052 sites de acesso impossível na China.

Foi constatado que a China possui o mais sofisticado e eficiente sistema de filtro de acesso à internet entre os vários países analisados. As autoridades chinesas negam o bloqueio.

O http://www.greatfirewallofchina.org/ já registrou 226224 site bloqueados. O estudo acima terminou em 2002 com 19.052 sites.

Será apenas uma ferramenta ideológica?

“NO caso do UOL, quando um internauta chinês tenta acessá-la recebe, a seguinte informação, em chinês: “não existe esta página, ou ela foi removida, ou ela está sendo auditada”, reporta em seu site Alexandre Atheniense.

Contudo há duas passagem no http://www.greatfirewallofchina.org/ que permite sustentar as duas teses (ferramenta ideológica e erro no sistema).

Disclaimer

this version 1.0 may report sites as being ‘blocked’, while there are only technical reasons for their unavailability.
It’s greatfirewallofchina.org’s aim to collaboratively build a community that will be able to visualize Internet censorship in an increasingly accurate way.

 

 

How it works

We’ve opened a website in China and route your url request on greatfirewallofchina.org through to our server in China. The server in China opens the url and the result is send back. Our testing is only based on one server on one location in China. We have different backup servers in different locations in China might one go down.
Other locations and other servers may give you different access to the various websites.

 

Taí Manolo, uma excelente discussão (não essa tratada aqui se o site é ou não ferramenta ideológica, passa por problemas e tal, importante sim, mas o essencial é compreender como fica a “notícia” e a seguinte problemática:

 

elogia-se a liberação do pólo de emissão após a internet, vários meios surgiram, como este blog, por exemplo. Mas, uma notícia errada, equivocada, uma barrigada (no jargão das redações) pode se revertida?

 

 

Seguindo a boa prática jornalística, o veículo colocaria em letras miúdas: Erramos.

Veja a Folha de São Paulo que modera até os comentários!!!

Não gosto, sinceramente, das “boas práticas jornalísticas”, por isso subi seu comentário para o debate.

Eu começo com uma citação de Ana Brambilla:

 

Uma notícia, porém, jamais será beta. Uma vez publicada, a notícia ganha reconhecimento público e influencia no curso da sociedade, muitas vezes, de modo irreversível.

 

E aí?

 

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2 Respostas para “A verdade (?) sobre o greatfirewallofchina.org ou uma notícia é beta?

  1. Tive uma discussão interessante sobre isso num portal de notícias do qual participo. Prefiro transcrevê-la, com o devido respeito à privacidade de meus interlocutores e do próprio portal, para começar.

    Uma pessoa pediu a retirada de uma foto, por um motivo sério, que prefiro não declinar para que o caso não seja identificável. Depois de uma breve discussão sobre a retirada da foto, escrevi:

    “Simples:

    a) Tem nome d@s autor@s? Tem.
    b) Tem correio eletrônico para contato? Não.
    c) Pode rebater na gente? Pode.

    Quem publicou as fotos só ‘recebe a galinha pulando nos peitos’ quando deixa contatos. Quando não deixa, mesmo quando tem lá o nome, é a gente que recebe.

    Solução possível? Deixar ele aparecer com a polícia, e tudo o mais. Se, e quando, ele fizer isso, tirar apenas a foto dele, que é o que ele pede. As demais ficam, assim como o artigo. Afinal, só somos obrigados a atender o que um dos ‘ofendidos’ pede; enquanto os demais não se manifestam, é como se nada houvesse acontecido.

    É mais um dos casos que envolve decisão política, e não apenas jurídica. Juridicamente, em tal situação, o ideal seria retirar logo a foto; politicamente, (…) acho que vale a pena peitar o caso, mesmo que o figura que pede a retirada das fotos já tenha sido inocentado pela Justiça.

    Como há uma questão política colocada, acho interessante ouvir outras pessoas antes de decidir pela retirada. Minha posição é de manter a foto até que venha todo o aparato policial; se a coisa encrespar, tiramos a foto do figura e mantemos o artigo com as demais fotos.”

    Resposta:

    “Quanto ao principio geral, minha posição é a seguinte: só tirar a
    matéria quando vier uma decisao da justiça, a nao ser que achamos (…) que eh o caso de tirar.
    E é aí que entra minha questão: e se o cara for inocente mesmo? Vamos
    deixar uma foto na internet acusando uma pessoa injustamente? Nao
    devemos adotar a presunção de inocencia? Eu nao conheço o caso, só dei
    uma lida no artigo. Alguém sabe mais e pode comentar?”

    A réplica:

    “Há dois critérios para definir a inocência neste caso:

    a) a observação direta: saber se o cara é inocente ou não por ter visto o fato acontecer.
    b) a decisão judicial de mérito: saber se o processo no qual foi julgado declarou a inocência dele analisando o mérito do caso, ou se aconteceu alguma questão processual que pôs fim ao processo.

    Quanto ao critério ‘a’, não creio que ninguém daqui possa afirmar o que quer que seja sobre a veracidade dos fatos. Se houver quem possa dizer alguma coisa por ter visto o que aconteceu, aí sim podemos discutir o caso entre nós; se não há, o esforço é vão.

    Na hipótese do critério ‘b’, a presunção de inocência se aplica ao Judiciário, que é um poder do Estado e pode exercer coerção e privação da liberdade, e não à imprensa, que é uma instituição social e, especificamente, apenas veicula opiniões, por piores ou melhores que sejam. Na imprensa, um caso como este se resolve com o contraditório (direito de resposta), e não com a presunção de inocência; não temos nenhum poder de punição, apenas a faculdade de veiculação de opiniões, e devemos dar o direito de resposta a quem quer que se sinta ofendido pelo que veiculamos.

    Resumidamente: o Judiciário recebe denúncias e ‘diz’: ‘quero saber mais coisas para saber se o Estado punirá ou não esta pessoa; antes disso, devo me abster de qualquer juízo de valor’. A imprensa, por sua vez, recebe denúncias e ‘diz’: ‘essa pessoa fez algo errado; se ela tem algo a dizer em sua defesa, que venha até mim para tornar públicos os argumentos em favor de sua inocência, e o público que julgue’. Ou, em certos casos, vice-versa: ‘esta pessoa é inocente daquilo que se diz; se alguém tem algo a dizer que comprove sua culpa em determinada questão, que venha até mim para expor publicamente suas acusações, e deixar que o público julgue’.

    Ainda segundo o critério ‘b’, o figura afirma que o Judiciário já declarou a inocência dele. Mas, se usamos o mesmo critério de ‘inocência formalmente declarada pelo Judiciário’, devemos levar a coisa às últimas conseqüências: se ele afirma ter sido inocentado pelo Judiciário, deve nos provar que isso aconteceu; afinal, alegação sem provas em direito não vale quase nada. Se é assim, a ‘inocência formalmente declarada pelo Judiciário’ será conhecida por nós quando nos for apresentado algum documento que a comprove, e não antes. Afinal, quem nos garante se este processo contra ele realmente existiu, e que tudo isso não é uma jogada para nos levar a retirar a foto dele da rede?

    E mesmo que ele nos apresente alguma decisão judicial que comprove ter havido um processo contra ele que já foi encerrado, é preciso observar se a decisão o absolveu realmente ou encerrou o processo por questões burocráticas. Na segunda hipótese, o Judiciário não o declarou inocente; apenas aconteceu algo no meio do caminho que levou o processo a ser encerrado antes que se chegasse a qualquer conclusão sobre o caso. Para o Judiciário, em tal situação ele continua tão inocente quanto entrou, pois só seria declarado culpado a partir de análise de provas; mas para fora do Judiciário, não há nada declarado, e tudo pode ser dito. O critério ‘b’ de declaração de inocência, neste caso, perde eficácia, e aí continua a valer a opinião.

    Daí achar que a foto deva permanecer até que nos sejam apresentados documentos que comprovem a declaração judicial de inocência dele. Quanto aos demais denunciados, não houve ainda manifestação alguma por parte deles, então não somos obrigados a retirar as fotos deles do ar.”

    A tréplica:

    “Não estou falando do critério judicial, evidentemente. Uma vez que a
    foto do cara está na rede vinculado a uma acusação forte (…), vamos simplesmente dizer que ele tem direito ao contraditório? Acho complicado. É de novo o caso da escola Base. Depois que a reputação da pessoa já foi destruída, como é que recupera? Só com o direito de resposta é que não.
    Mas, deixando essa argumentação de princípio de lado, o que me chama a
    atenção no caso é que o sujeito não diz em nenhum momento que aquilo é
    uma inverdade, apenas que ele foi inocentado na justiça…”

    De fato, notícia publicada não é “beta”, causa efeitos gravíssimos na vida de uma pessoa. A ética, não apenas a jornalística, indica que devemos reparar os erros que cometemos na mesma proporção do erros cometidos. Neste portal específico, tenho a mais absoluta certeza e convicção de que o “erramos” não seria tão pequeno quanto num “jornalão” qualquer, e inclusive apoiaríamos os ofendidos por nossos erros fazendo uma boa campanha para recuperar a imagem arranhada.

    Acontece, evidentemente, que não somos um “jornalão”. Temos outros princípios além do lucro e da conquista e manutenção de prestígio. Neste caso, é lícito exigir postura ética, mas incerta sua observância. Daí devolvo a bola: que fazer? As indenizações judiciárias monetarizam a questão, mas não recuperam a imagem da pessoa. Criar leis que disciplinem casos como esses? Fazer manifestações na porta dos “jornalões” e campanhas de boicote? E aí? Qual nosso poder diante dos “jornalões” antiéticos?

  2. Hum…
    Manolo, primeiro grato pelo interesse no debate. Responderei aqui mesmo para garantir a eqüidade da visibilidade neste blog.

    Vamos lá:
    1- Qual nosso poder diante dos “jornalões” antiéticos?
    Resposta: pode até parecer ingênuo da minha parte, mas o que garante a audiência somos nós. o poder (a priori) está na mão do leitor, receptor, entretanto o poder não significa apenas mudar de canal, mas é garantir que a sociedade civil interfira na avaliação do conteúdo, diferente o que acontece nas renovações das concessões de rádio e tevê, que “testa” a tecnologia e burocracia.
    Outro exemplo, foi a campanha do Estadão contra os blogueiros, afirmando que qualquer macaco é capaz de copiar e colar uma informação, nos assemelhando a eles. O que houve? De forma espontânea um grupo de blogueiros criticou a campanha do jornal, a idéia foi ventilada, ganhou apoio: a idéia era boicotar o Estadão. Não sei o resultado concreto (por exemplo se o jornal perdeu anunciantes/ assinantes), mas a campanha saiu do ar, o jornal pediu desculpa e entrou para história recente da web.

    Porém, existe também o seguinte viés da sua provocação:
    liberdade de expressão x dignidade humana.
    No capitalismo, a expressão da livre opinião é um “bem”/ “patrimônio” maior do que qualquer outro, vale até humilhar, ofender a pessoa humana…um exemplo claro são páginas policiais, cobertura dos movimentos sociais, você vive essa realidade e sabe do que estou a falar.
    Não trata-se de censura, mas em alguns casos é preciso julgar, com legitimidade moral alguns conteúdos e proibir mesmo.

    Sobre a notícia e os erros. Creio que o garantia do contraditório, ouvir o outro lado, como diz a imprensa não é suficiente. Leis também, como você disse acima não “limpam” a imagem da pessoa maculada.

    A idéia é justamente esta que você sugeriu:
    “A ética, não apenas a jornalística, indica que devemos reparar os erros que cometemos na mesma proporção do erros cometidos. Neste portal específico, tenho a mais absoluta certeza e convicção de que o “erramos” não seria tão pequeno quanto num “jornalão” qualquer, e inclusive apoiaríamos os ofendidos por nossos erros fazendo uma boa campanha para recuperar a imagem arranhada”.

    Um simples erramos não ajuda em nada. E vou mais além, acho que o jornal, em caso de erro deveria subir o debate (assim como fiz aqui no blog), assumir o erro, ser transparente. Tive essa experiência em jornal (jornalão mesmo), erramos um dado sobre alcoolismo. Afirmamos que 15% da população do município (São Sebastião do Passé) era bebada…hehehe…Na verdade 15% são dados mundiais. Falha da fonte, da repórter, do editor…não importa muito…é preciso remediar o problema com doses superiores….

    Aí o título, senão me falha a memória foi: Jornal erra em matéria. Causou um bom impacto no município citado, porém, chega a ser trágico, uns 45% dos coleguinhas jornalistas detonaram a nossa postura….bom, a sorte é 55% aplaudiu a iniciativa, mas 70% acredita que dificilmente os jornalões repetiriam o nosso feito.

    é isso…

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