Entrevista com Juliano Spyer

“Conectado, o que a internet fez com você e o que você pode fazer com ela” é resultado de dez anos de experiência em projetos de comunidades online e ações colaborativas nos Estados Unidos, América Latina e Espanha. O autor da obra, Juliano Spyer, historiador e palestrante para o curso de mídias digitais da PUC-SP e do Departamento de Publicidade da ECA-USP, aborda os desafios e as polêmicas geradas pela web em seu livro. Em entrevista (por e-mail) exclusiva para o blog herdeirodocaos, Spyer fala sobre web 2.0, jornalismo open-source, blogueiros, desafios para os jornalistas e declara ser dependente da internet”.

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Confira a entrevista sem cortes e edição. Na íntegra.

 

 

Yuri Almeida -“Conectado, o que a internet fez com você e o que você pode fazer com ela”. É o título do seu livro, lançado recentemente. A primeira pergunta que lhe faço é justamente esta: o que a internet fez com você e o que você pode fazer com ela?

 

Juliano Spyer – O título e subtitulo do livro indicam o dilema de quem usa a internet: ela liberta ao mesmo tempo que prende. Quem está conectado, está preso à máquina, à rede e, ao mesmo tempo, consegue ir muito mais longe. A internet fez isso comigo: me tornou um dependente que, inclusive apresenta ocasionalmente sintomas de abstinência. E o que eu fiz com ela, entre outras coisas, fiz um livro. 😉

 

Y.A – Você é um defensor do sistema open-source. Mas, porque não disponibilizou gratuitamente seu livro na rede?

 

J.S – Em poucas palavras, porque o open não se opõe ao mercado, como aponta o professor Yochai Benkler, autor do livro mais importante sobre esse assunto, The Wealth of the Networks, na opinião de intelectuais importantes como o Lawrence Lessig. Entre outros motivos, optei por lançar o livro apenas em papel porque a participação da editora Jorge Zahar adicionou muito valor ao livro, desde o valor do endosso, passando pela contratação de revisores, ilustradores, capistas e muitos outros profissionais, até a distribuição feita para todo o país. Tenho certeza que se o livro tivesse sido lançado apenas online em PDF, voce nem teria ficado sabendo dele e se tivesse, dificilmente se daria ao trabalho de ler, justamente porque eu não sou conhecido e porque existe conteúdo demais na rede, um total overload de informação.

 

Y.A – A evolução da inteligência coletiva passa pelo desenvolvimento dos conteúdos e programas de forma colaborativa?

 

J.S – A idéia – de novo fazendo referência ao Benkler – é que a rede estimula a formação de uma economia de trocas de informação que funciona como alternativa à economia de mercado. Além de trabalhar por dinheiro, as pessoas trabalham para suprir outras necessidades como formar uma reputação profissional ou se sentir bem apoiando projetos que considere relevantes. Isso justifica o sucesso de projetos bottom-up como o Linux e a Wikipedia.

 

 

“a rede estimula a formação de uma economia de trocas de informação que funciona como alternativa à economia de mercado”.

 

Y.A – Recentemente, a revista The Economist fez uma parceira com os 100 blogs, que abordam o debate sobre a política, mais influente dos E.U.A. A estratégia da revista é antecipar o conteúdo para que os blogueiros comentem as matérias gerando, desta forma, interesse no leitor em adquirir a revista. Esse fato explica o que você destaca: que o blog propicia uma experiência libertadora: a de conversar com audiências?

 

J.S – A experiência libertadora a que me refiro é ter a oportunidade de aprender a conversar com audiências, de cada pessoa poder assumir sua parte de responsabilidade pela condução do debate na esfera pública. O fato da The Economist – talvez a revista mais influente do mundo hoje – reconhecer a importância da comunidade blogueira confirma que os meios tradicionais estão procurando maneiras para se inserirem e aproveitarem o fato da comunicação ser barata e acessível.

 

Y.A – O Jornal de Debates promoveu a seguinte discussão: a internet aproxima ou distancia as pessoas. Qual a sua opinião?

 

J.S – Acho que a internet permite que mais pessoas falem entre si. Nesse sentido, ela aproxima.

 

Y.A – Na opinião de Pierre Lévy: “A web 2.0 significa apenas que tem muito mais gente se apropriando da tecnologia da internet, o que a torna um fenômeno social de massa. Você propõe um conceito de web ao vivo e mídia social . Poderia explicar melhor estes conceitos?

J.S – Eu não gosto do termo Web 2.0 porque acho que ele é vago e pode servir para pessoas tirarem proveito do aquecimento da economia oferecendo produtos e serviços que não sejam úteis ou apropriados para as necessidades de quem compra. Web ao vivo é um termo que eu vi no blog do José Murillo Jr e se refere, até onde eu entendo, a essa infraestrutura de comunicação que é sustentada pela participação de pessoas – em oposição, por exemplo, à web que usa notícias “frias”, produzidas e distribuídas em massa pela indústria da notícia. Mídia social vai pelo mesmo caminho.

“cada pessoa poder assumir sua parte de responsabilidade pela condução do debate na esfera pública”.

 

Y.A – Qual a sua avaliação das experiências de jornalismo colaborativo no Brasil?

 

J.S – Acho que estamos presenciando um momento muito rico, de amadurecimento do usuário brasileiro da internet. Até pouco tempo, muita gente que tinha coisas interessantes a dizer não conseguia porque usava a Web apenas para fazer pesquisas e mandar emails. Meu livro foi escrito para esse público, com o objetivo de acelerar esse processo da abertura dos canais de comunicação.

 

Y.A – A prática mostra que o brasileiro gosta mesmo é relacionamento. Você acha que este componente é essencial para as experiências colaborativas? Como poderíamos aplicar o relacionamento em uma experiência de jornalismo colaborativo, por exemplo?

 

J.S – O blog é um instrumento de relacionamento. A maioria dos blogs indica uma série de outros blogs, que constituem sua rede de contatos. O blogueiro vive de reprocessar e repassar as informações que o interessam. Quanto mais o assunto tratado no blog for de interesse público, mais ele estará inserido em comunidades e participará da discussão e da difusão de notícias.

 

Y.A – Você concorda que o blog seja uma manifestação individual?

 

J.S – Sim e não. Um blog só existe junto com a blogosfera. Mas ele é a expressão de uma ou poucas pessoas.

 

Y.A – Em uma entrevista você declarou: “Logo seremos parte de um Matrix e as pessoas vão preferir usar o Google a usar suas memórias”. Isso prova que a tecnologia é a extensão do homem? Ou a internet será uma dependência nociva?

 

J.S – A tecnologia sempre causa dependência. Será que nos adaptaríamos facilmente à vida sem eletricidade? Acho que a frase que voce citou apenas indica que estamos mais submetidos a essa infraestrutura de armazenamento e transmissão de informações.

 

“A tecnologia sempre causa dependência”.

 

Y.A – Ao afirmar que um blogueiro profissional não é diferente de um jornalista, você esta se referindo as técnicas utilizadas (reportagem, entrevista) e o fim da atividade (produzir conteúdo) ou o blogueiro também já pertence ao campo social do jornalismo. Eles possuem o mesmo capital social? Desempenham a mesma função na sociedade?

 

J.S – Eu acho que o blogueiro não é só a pessoa que usa o blog para se comunicar. O blogueiro profissional, que ganha para escrever, está se colocando na função de jornalista.

 

Y.A –Quais seriam os desafios (resultante da internet) para os futuros jornalistas?

 

J.S – acho que o desafio se resume ao que o dan Guilmor disse no seu We Are the Media: “aprender que sua audiência sabem mais que você e que isso pode ser uma grande vantagem”.

Y.A – O que você acha mais interessante na internet? E o mais bizarro?

J.S – Acho que a própria internet é o mais interessante da internet. E com relação a coisas bizarras, é mais fácil ler o livro The Cult of the Amateur, que mostra muitos motivos para a gente ter saudades da época em que a internet não existia.

 

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2 Respostas para “Entrevista com Juliano Spyer

  1. Legal. Esse post e o anterior. Estou passando para frente, porque são temas que estão na nossa agenda de discussão. Fiquei pensando nessa discussão sobre se o blogueiro é jornalista ou não e vice-versa. O que me passou foi que essa função tradicional do jornalista, de organizar e relatar a realidade, tornando-a mais palatável para os demais mortais, está caducando.

    Primeiro, porque não necessitamos mais de uma ordem muito didática para captarmos e compreendermos os acontecimentos da vida. Ela não faz mais sentido. Hoje convivemos muito bem com essa fragmentação da informação e a possibilidade quase infinita de juntarmos as peças de acordo com o que acharmos mais conveniente ou adequado para cada momento. Com 20 janelas abertas na tela do computador!

    Segundo, porque essa fragmentação nos permite também trabalhar uma mesma informação sob os mais diversos pontos de vista, bastando um clique no google (ave google, estou liberando minha memória para coisas mais aprazíveis!). O que no trabalho tradicional do jornalista é quase impossível. Quando muito, arriscam duas versões.

    Estou pensando alto e alugando muito espaço. O que me passou, para finalizar, é que os jornalistas estão precisando superar o medo da extinção e enfrentar as mudanças de coração aberto e mente alerta. Acredito que eles terão um papel importante nas transformações da mídia, mas eles precisam se abrir para o debate e a reflexão menos corporativa. Um abraço.

  2. Pingback: Jornalismo open source: um conceito em construção « Na Íntegra

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