Blog da Semana: Mídia Rebelde

Como de costume, toda semana (ou quase isso) destaco um blog interessante, coloco o feed na lateral do herdeirodocaos, faço uma breve apresentação, enfim. A idéia é formar uma rede de afinidades/pesquisa entre esses blogueiros e possibilitar aos co-autores deste blog outras leituras.

Após algumas experiências avaliei ser insuficiente apenas o “breve comentário” sobre os blogs em questão para a formação de tal rede e o compartilhamento de idéias. Por isso, a partir de agora pretendo trazer toda semana além do feed (se o “tempo” permitir) um diálogo com os blogueiros selecionados, sobre a temática/proposta dos referidos blogs.

Para iniciar essa nova temporada da série Blog da Semana, o bate-papo foi com a jornalista Vanessa Costa, integrante do blog coletivo Mídia Rebelde, made in Salvador -Bahia.

***

 

Pergunta 0 - Quando descobri o blog lembrei automaticamente do livro “Mídia Radical”do John Downing, cujo foco era analisar como a mídia radical de pequena escala pode ter algum impacto digno de nota. Tem alguma relação com o blog?

Downing utiliza “mídia radical” para se referir a mídia – em geral de pequena escala e sob muitas formas diferentes – que expresse uma visão alternativa às políticas, prioridades e perspectivas hegemônicas.

Ao indicar as características da mídia radical, Downing argumenta que esta mídia rompe, constantemente, com regras, embora raramente quebrem todas elas, em todos os aspectos e a sua missão seria elevar a condição humana. Esse deveria ser o papel da imprensa?

Sim. Um texto de Albert Camus dizia que os escritores deveriam estar onde se encontrava a opressão e escrever sobre ela. Este também deve ser o papel da “nossa” mídia. O termo Rebelde surge com intenção parecida a idéia de Downing: rebater as perspectivas hegemônicas, mas sem querer se tornar hegemônica.

Mídia Rebelde, um blog subversivo?

A partir do conceito de subverter: “Destruir de baixo para cima”.

Como surgiu a idéia de criar o blog? E por que criar um blog?

Quem dá boas diretrizes e motivos para se criar um blog é Hugh Hewitt. É um sujeito de centro-direita americana (ele se intitula assim) e que escreveu o livro “Blog: Entenda a Revolução”. Ali ele identifica até os motivos pelos quais os “radicais muçulmanos” (termo usados por ele) começaram a usar a internet (e blogs) para levar a palavra de Maomé aos povos infiéis… ou seja, blogs são ótimos para criação de redes de pessoas que pensam parecido… e é isso que vai desmantelando a tal da mídia hegemônica.

Quem são e o que fazem os integrantes do Mídia Rebelde ?

Jornalistas formados e estudantes, Técnicos industriais, Servidores Públicos, Mestrandos em História e Direito.

No primeiro post vocês escreveram: “O que desejamos com este blog? Acho que aos pouquinhos a gente vai deixando bem claro”. E aí? Como é a vida de blogueiro? As dificuldades encontradas, oportunidades visualizadas…

- Da mesma forma que alguns jornais alternativos dos anos 70/80 os blogs jornalísticos atuais são um espaço onde se tem o direito inalienável de se escrever o que se quer, sem a censura do editor, do proprietário, da sociedade, etc.

- A participação na construção coletiva de um instrumento midiático é importante para qualquer indivíduo, seja da área de jornalismo ou não. Pela facilidade de uso e manutenção o blog possibilita que essa construção seja mais factível que qualquer outra mídia.

- Temos a oportunidade de externar o que pensamos sobre a política atuante no nosso país, e as grandes distorções da humanidade em geral.

Vocês acabaram de deixar a academia, como os seus colegas se relacionam com a internet, blogs, software? E os professores? Já descobriram que bicho é esse chamado internet?

A maioria dos professores parece odiar a Internet. Talvez prevendo a perda do posto de “instrutores” de técnicas jornalísticas para a rede. Nem todos nós somos jornalistas formados, e eu, particularmente, não quero que o blog seja apenas formado por aqueles.

Na academia, o contato com a internet, software etc. é muito limitado, há apenas uma matéria de webjornalismo. Ainda, temos algumas dificuldades com software, e de lidar com todos os recursos disponíveis nessa grande rede.

Em post “Por uma outra comunicação” critica-se a indústria de massa, o capitalismo e a paralisia crítica da sociedade. O que seria essa outra comunicação? E como ela pode transformar a sociedade? Será que tem esse poder todo?

Tem uma frase de Bakunin em Deus e o Estado que mostra a necessidade de outra comunicação:

“É preciso que a ciência não permaneça mais fora da vida de todos, tendo por representante um corpo de cientistas diplomados, é necessário que ela se fundamente e se dissemine nas massas. A ciência, chamada doravante a representar a consciência coletiva da sociedade, deve realmente tornar-se propriedade de todo mundo”.

Onde se lê ciência, leia-se comunicação.

E o mercado de trabalho para os focas? Otimistas quanto à profissão?

O mercado parece que ainda se limita aqueles que possuem influências, que pertencem à grandes famílias ricas. O otimismo fica por conta da nossa capacidade, qualificação e daquilo que queremos, mas, não esperando muito do mercado, e justamente por isso que precisamos buscar novas alternativas, novas mídias.

As faculdades de comunicação preparam os jovens para o jornalismo? O que se ensina na sala de aula é suficiente para enfrentar a profissão?

Não. A faculdade desempenha um papel importante, de mostrar o caminho, os autores, parte deles na verdade, o que não saberíamos se não estivesse em uma sala de aula, mas, o preparo parte de cada um, individualmente. A leitura é um dos pontos fundamentais. As oportunidades de atuar na área podem facilitar na identificação de que área se especializar.
Como não poderia deixar de ser: avaliação do jornalismo na Bahia e, principalmente, na internet…

Ainda temos um jornalismo provinciano na Bahia, e particularmente não vemos jornalismo na internet aqui. Se falarmos de jornalismo televisivo então… É a guerra pela audiência fazendo do povão e suas dificuldades diárias a escada para liderança. Por isso, os blogs servem de espaço para se conhecer novos profissionais, que não sejam apenas um rosto bonito nas redações, principalmente de TV e rádio, mas, que tenham conteúdo, que estejam bem informado, e que conheçam profundamente o jornalismo na prática e na teoria. Claro, que em 4 anos, isso não acontece, mas, aí é o diferencial, de quem corre atrás após a graduação.

Sempre quando faço uma entrevista fico pensando: se o meu entrevistado pudesse me perguntar algo, o que será que ele questionaria? Faço essa pergunta a você.

Qual o principal objetivo do herdeiro do caos? O que você realmente espera do seu blog?

O herdeirodocaos nasceu como proposta de diálogo sobre o ciberespaço e as ações sócio-culturais desenvolvidas na web, em especial reflexões acerca do jornalismo open source, objeto de estudo na pós-graduação.

Penso que o blog é antes de tudo um espaço de sociabilidade, do diálogo e compartilhamento do saber. Criei-o com esse intuito e até agora tenho conseguido estabelecer bons debates e conhecer pessoas interessantes via o herdeirodocaos.

 

Qual a sua opinião sobre o jornalismo baiano? Há futuro?

Hum…Daria uma tese de doutorado a resposta. Por tanto, avalio apenas o ciberjornalismo desenvolvido pelos media baianos. No geral, os jornais da Bahia são transpositivos, ou seja, utilizam a mesma arquitetura, narrativas e lógica para a produção do conteúdo digital. Acho que o A Tarde evoluiu bastante. Mas, muito longe do ideal.

Em geral pode-se fazer as seguintes críticas ao ciberjornalismo, made in Bahia:

 

1- As editorias do on-line são semelhantes a da versão impressa, limitando as experiências dos seus leitores na Web. O layout (arquitetura da informação) proporciona ao usuário apenas um tipo de navegabilidade e acesso ao conteúdo, uma vez que o modelo para a organização visual obedece a um único formato.

2- O conteúdo digital é oriundo da versão impressa, que é totalmente publicado no sítio sem nenhuma adaptação textual, uso de links, hipertextos, arquivos multimída e outros elementos (como a possibilidade de comentar determinada matéria, enviar erros, enviar por e-mail) que garantam a interatividade com o usuário.

3- Faltam Multimidialidade/Convergência dos conteúdos, não existe um arquivo audiovisual, infografia, slide show. 

4- A narrativa jornalística não explora a hipertextualidade, links, e não permite que o usuário tenha algum tipo de interação com a matéria e muito menos existe a personalização do conteúdo, uma vez que a sociedade é estruturada em valores individualistas, onde para o indivíduo urge a necessidade em ser único, singular.

Leave a Reply